petroleiro no estreito e Ormuz | imagem gerada por IA petroleiro no estreito e Ormuz | imagem gerada por IA

O que o choque petrolífero de 1973 não teve: carros elétricos

O diretor da Agência Internacional de Energia diz que a eletrificação da frota automóvel contribui para superar o choque energético.

O maior choque petrolífero da história está a acontecer agora, e pela primeira vez há uma variável nova no cenário: os veículos elétricos. O chefe da Agência Internacional de Energia (IEA) diz que isso faz a diferença.

Ouve o resumo do artigo:

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Resumo
O maior choque energético da história
A guerra com o Irão retirou 11 milhões de barris por dia: mais do que os dois choques dos anos 70 somados.
25% dos carros vendidos já são elétricos
Há cinco anos eram 5%. A eletrificação é, segundo a AIE, o que diferencia esta crise da de 1973.
Europa cresce 21% em elétricos
600 mil unidades vendidas em janeiro-fevereiro de 2026, enquanto o mercado total da UE recuou 1,2%.
40 infraestruturas energéticas danificadas
Em nove países do Médio Oriente. Algumas levarão mais de seis meses a recuperar capacidade.

Choque petrolífero de 11 milhões de barris por dia

Fatih Birol, diretor-executivo da IEA, disse hoje na National Press Club da Austrália que o mundo perdeu já 11 milhões de barris por dia de fornecimento de petróleo desde o início da guerra com o Irão.

Infografia gerada por IA

As crises de 1973 e 1979 custaram, juntas, 10 milhões de barris por dia. A crise atual supera as duas somadas.

Os números que explicam por que 2026 não é 1973

O choque petrolífero dos anos 70 gerou recessão global. Governos impuseram limites de velocidade, racionamento de combustível e programas de eficiência que ainda existem hoje. A resposta à escassez foi forçada e dolorosa.

Desta vez há uma parte da frota que não precisa de gasolina. Na Europa, os veículos elétricos representaram 18,8% das vendas nos primeiros dois meses de 2026, segundo dados da ACEA publicados esta manhã. As matrículas totais na UE caíram 1,2% no mesmo período. Os elétricos crescem enquanto o mercado global encolhe.

Quota por motorização — UE jan-fev 2026
Quota de mercado por motorização na UE, janeiro-fevereiro 2026
MotorizaçãoQuota de mercado
Híbrido (HEV)38,7%
Gasolina22,5%
BEV (100% elétrico)18,8%
PHEV (híbrido plug-in)9,8%
Diesel8,1%
Outros2,1%
Mercado automóvel · UE jan-fev 2026
Quota de mercado por motorização
Veículos ligeiros de passageiros registados na União Europeia nos primeiros dois meses de 2026. Total: 1.664.680 unidades.
18,8%
BEV
Híbrido (HEV) 38,7%
Gasolina 22,5%
BEV — 100% elétrico 18,8%
PHEV — híbrido plug-in 9,8%
Diesel 8,1%
Outros 2,1%

Em Portugal, as vendas de elétricos cresceram 25,8% nos primeiros dois meses do ano, com mais de 9.000 unidades registadas. Em Fevereiro de 2026 foram vendidas 4.732 ligeiros de passageiros puramente elétricos: mais 19,9% do que no mesmo mês de 2025. Desde o início do ano, foram colocados nas estradas portuguesas um total de 9.073 carros elétricos.

“Veremos uma transformação do setor automóvel”

Na Austrália, Birol foi direto sobre o papel dos elétricos no choque petrolífero que vivemos. “Há cinco anos, apenas 5% dos carros vendidos no mundo eram elétricos.

Fatih Birol, diretor-executivo da AIE
Fatih Birol, diretor-executivo da AIE

No ano passado, 25% de todos os carros vendidos eram elétricos”, disse, na conferência de imprensa em Camberra. “Espero que na Austrália e noutras partes do mundo vejamos uma eletrificação crescente do setor dos transportes.”


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A comparação com o choque petrolífero dos anos 70 foi feita com precisão. Nessa altura, a resposta política passou por impor eficiência nos motores e construir centrais nucleares: cerca de 40% das centrais nucleares existentes no mundo foram construídas como resposta àqueles choques.

Desta vez, Birol antecipa uma resposta diferente em parte: “Desta vez, veremos respostas iguais ou semelhantes. E uma delas, na minha opinião, será no setor dos transportes, com uma aposta cada vez maior na eletrificação.”

A frase seguinte resume o argumento: “Veremos uma grande transformação do setor automóvel.”

Quarenta infraestruturas danificadas

O custo físico da guerra tem outra dimensão que raramente chega aos títulos. Quarenta infraestruturas energéticas em nove países estão gravemente danificadas: campos de petróleo, refinarias, gasodutos. Mesmo que o conflito termine nos próximos dias, disse Birol, algumas dessas instalações vão demorar mais de seis meses a recuperar capacidade.

O Estreito de Ormuz está bloqueado ao trânsito de 15 milhões de barris de petróleo e 5 milhões de produtos petrolíferos por dia. A AIE já coordenou a maior libertação de reservas estratégicas da sua história: 400 milhões de barris. “Ainda tenho 80% no bolso”, disse Birol, deixando implícito que pode haver uma segunda ronda caso os mercados deteriorem.

A cadeia de fornecimento afetada vai além do petróleo. Petroquímica, adubos, enxofre, hélio: tudo passa pelo Golfo Pérsico, e tudo está interrompido.

“Desta vez, veremos respostas iguais ou semelhantes. E uma delas, na minha opinião, será no setor dos transportes, com uma aposta cada vez maior na eletrificação.”

Fatih Birol, diretor-executivo, Agência Internacional de Energia

A divergência que os dados de hoje confirmam

A América do Norte conta uma história diferente da Europa. O fim dos incentivos federais pela administração Trump, em setembro de 2025, travou a procura de forma abrupta. A Ford registou uma queda de 70% nas vendas de elétricos no acumulado do ano. A Honda caiu 81%. A fabricante de baterias SK On despediu 37% dos trabalhadores na fábrica da Geórgia.

A divergência entre os dois blocos é o argumento mais concreto disponível sobre o que os incentivos fazem, ou deixam de fazer, ao ritmo de eletrificação. Com os preços do petróleo a subir, o mercado americano está a pagar um custo que o europeu sente menos.

Os preços do petróleo Brent estiveram acima dos 110 dólares por barril na semana passada. Depois de Trump anunciar conversações com o Irão, desceram para cerca de 102 dólares. Continuam a mais do dobro do nível considerado normal antes do conflito.

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