A BYD garante 520 km WLTP ao Seal com bateria Blade LFP. O Model Y Long Range com química NMC anuncia mais autonomia e custa mais. Os dois modelos têm filosofias diferentes e utilizam baterias com cátodos diferentes.
Neste artigo:
O que está dentro do cátodo
Lítio-ferro-fosfato num caso. Lítio-níquel-manganês-cobalto no outro. É o que distingue LFP de NMC a nível químico.
O cobalto encarece a célula. Também aumenta a densidade energética: um pack NMC de 77 kWh ocupa menos volume e pesa menos do que um LFP com a mesma capacidade. Em carros onde cada quilograma tem impacto direto na autonomia, isso não é detalhe.
O fosfato de ferro não liberta oxigénio em sobreaquecimento, pelo que em caso de colisão grave ou falha no BMS, o risco de incêndio é substancialmente mais baixo do que com a química NMC.
Os responsáveis de frotas citam este dado quando justificam a escolha da LFP para veículos de serviço.

A curva de descarga das baterias LFP é muito plana, pelo que a energia é disponibilizada de forma bastante estável entre cerca de 80 e 20% de carga. Só nas últimas percentagens o sistema de gestão começa a limitar mais a potência e a autonomia disponível, para proteger a bateria em baixa carga
Carregar a 100%
A Tesla escreve-o no manual: nos modelos com LFP, carregar a 100% regularmente é o comportamento recomendado. A marca pede também um ciclo completo de carga e descarga com alguma periodicidade para recalibrar a leitura do estado de carga.
Já conheces?
Nos fabricantes europeus com NMC, a lógica é a inversa. Os BMS têm dois limites configuráveis: um para uso diário, outro para viagem. O limite diário raramente excede os 80%.
Oito anos de diferença entre carregar a 80 ou a 100% todas as noites não aparecem no primeiro ano. Aparecem nos dados de revenda.
Degradação real
Num estudo publicado em janeiro, em que analisou 22.700 veículos de 21 modelos, a Geotab chegou à conclusão de que a degradação média anual é de 2,3%.
Este número é superior ao do estudo anterior, em que a Geotab tinha chegado aos 1,5% de degradação anual.
O carregamento DC acima dos 100 kW é o principal fator para esta discrepância. Frotas que carregam em AC mantêm-se nos 1,5% ao ano. Com DC rápido como hábito, o valor sobe para 3,0%.
Marcas que usam as duas químicas
A Tesla é o caso mais claro de uma marca com as duas químicas na mesma gama. O Model 3 e o Model Y de entrada usam LFP, com células CATL e pack de 62,5 kWh. As versões Long Range e Performance dos mesmos modelos passam para NMC. O comprador escolhe a química quando escolhe a versão, muitas vezes sem o saber.

Infografia gerada por IA
O Volvo EX30 repete o padrão. A versão de entrada tem células VREMT e química LFP, com 344 km WLTP. A Extended Range e a Twin Motor, na mesma carroçaria, usam NMC e chegam aos 476 a 480 km. A diferença de autonomia entre versões explica-se em parte pela química, em parte pela capacidade do pack.
A BYD optou por uma abordagem diferente. Toda a gama usa Blade LFP: Dolphin, Seal, Seal U, Sealion 7. O Seal tem 83 kWh e 520 km WLTP. A marca não oferece NMC como alternativa.
No segmento dos acessíveis europeus, o Citroën ë-C3 usa LFP. O Volkswagen ID.3, o ID.4 e o Renault 5 continuam em NMC. A XPENG entra com o P7+ em LFP na versão base, com 430 km WLTP.

O frio e o que os números dizem para Portugal
No El Prix de 2025, o maior teste de autonomia no inverno do mundo organizado pela Federação Norueguesa de Automóveis, o Tesla Model 3 Long Range RWD foi uma das maiores desilusões. A 5 graus Celsius, o modelo que anunciava 702 km WLTP percorreu 530,8 km. Uma perda de 24%. O EVMag cobriu o teste.
O Polestar 3, com NMC, perdeu apenas 5% da autonomia anunciada nas mesmas condições. Percorreu 531 km e venceu a prova entre 23 concorrentes.
No litoral português, o inverno raramente desce abaixo dos 8 graus. Bragança, Guarda, Viseu em dezembro são outro assunto. As mínimas ficam abaixo de zero com regularidade, e é aí que a diferença entre as duas químicas começa a ter peso real.
Bjørn Nyland testou o Model Y de entrada LFP com temperatura negativa e registou quebras de autonomia de cerca de 40% face ao WLTP. No mesmo teste, o Long Range NMC ficou entre 25 e 30%. Quinze pontos percentuais de diferença num percurso de montanha no interior em janeiro não são desprezíveis.
LFP é escolha certa para a maioria
A maioria dos proprietários de elétricos em Portugal carrega em casa, faz menos de 100 km por dia e raramente atravessa o país de ponta a ponta. Para esse perfil, a LFP tem todas as vantagens: carrega a 100%, degrada menos com AC, custa menos.
A NMC começa a fazer sentido quando as viagens longas são frequentes e o inverno é frio. Não é o perfil da maioria.





