Um documento confidencial enviado pela ACEA aos ministros europeus do Ambiente pede que as metas de redução de CO2 dos automóveis desça ainda mais.
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O documento confidencial
Concretamente, a associação dos fabricantes quer que as metas de redução de CO2 sejam calculadas numa média de cinco anos, em vez de três, e que o objetivo de redução desça dos 90% atuais para 80%.
O documento confidencial foi obtido pela Transport & Environment (T&E), que fez as contas: aceites, estas propostas custariam à Europa 74 mil milhões de euros em importações de petróleo extra entre 2026 e 2035.
A Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA) enviou o documento às pastas de ministros do Ambiente de vários estados-membro em março, sem divulgação pública. A T&E obteve-o e tornou o seu conteúdo público.
O que quer a ACEA
A proposta tem dois eixos. Primeiro, que o cumprimento das metas de CO2 dos fabricantes passe a ser avaliado ao longo de cinco anos consecutivos, de 2028 a 2032, em vez dos três anos previstos na proposta da Comissão Europeia, que cobre 2030 a 2032. É uma alteração de formulação com efeito prático: abre espaço para vender mais veículos de combustão nos primeiros anos do período sem penalização imediata.
Segundo, a ACEA propõe baixar o objetivo de redução de emissões de 90% para 80%, com um sistema de créditos que permitiria compensar os 10% restantes através de materiais de baixo carbono, combustíveis sintéticos ou outras tecnologias não totalmente eléctricas. Segundo a análise da T&E, este mecanismo tornaria tecnicamente possível continuar a vender veículos não zero-emissões depois de 2035.
O custo em contas concretas
A T&E calculou o impacto financeiro directo. Com as metas actuais, os fabricantes são pressionados a elevar as vendas de BEV para cumprir os limites de CO2. Com a proposta confidencial da ACEA, essa pressão desaparece ou é mitigada.
O resultado seria uma menor penetração de veículos eléctricos na Europa. A quota BEV ficaria, segundo os modelos da organização, nos 52% do mercado em 2035, em vez dos 100% previstos pela legislação vigente. Cada ponto percentual de quota perdida equivale a mais petróleo importado: o total acumulado é de 74 mil milhões de euros a mais em compras de crude entre 2026 e 2035.
As emissões adicionais chegariam a 2,4 gigatoneladas de CO2 entre 2026 e 2050, o equivalente a mais de cinco anos de emissões de toda a frota automóvel europeia actual.
O contexto em que o documento foi enviado
A proposta confidencial da ACEA chega num momento em que a Comissão Europeia já tinha cedido terreno. No pacote automóvel aprovado no final de 2025, a meta original de 100% de redução de emissões em 2035 foi substituída por um objetivo de 90%, com os restantes 10% a poderem ser compensados por créditos de materiais de baixo carbono. A ACEA pede agora um segundo recuo, sobre uma posição que já era uma concessão.
Já conheces?
O contexto energético complica a equação política. A guerra no Médio Oriente empurrou os preços do petróleo para níveis que colocam o litro de gasolina acima dos dois euros em vários países europeus, incluindo Portugal. Um conjunto de 31 organizações não-governamentais europeias, entre as quais a Oxfam, a WWF e a própria T&E, escreveu esta semana à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, pedindo um imposto extraordinário sobre os lucros excessivos das petrolíferas, a ser canalizado para famílias vulneráveis e transição energética.
“Os fabricantes de automóveis e o governo de Friedrich Merz estão a alimentar a dependência do petróleo da Europa num momento em que muitos europeus pagam 2 euros por litro de gasolina. Enquanto os condutores têm dificuldades em abastecer, a ACEA está a manobrar para atrasar a chegada dos veículos eléctricos mais acessíveis”, afirmou Isabell Büschel, directora da T&E Espanha.
Quota de carros elétricos pode estagnar
Em 2024, o mercado europeu de BEV tinha uma quota de 13,6%. Em 2025 chegou aos 19%. A T&E estima que, mantidas as metas actuais, a quota suba para 23% em 2026 e 28% em 2027. Com as metas enfraquecidas segundo a proposta da ACEA, a organização projecta que essa progressão abrande e a quota fique estagnada nos 21% durante a segunda metade da década.
Em Portugal, o mercado avança a um ritmo próprio. No primeiro trimestre de 2026, os BEV representaram 22,7% das matrículas de ligeiros de passageiros em março, com 44.484 ligeiros eletrificados registados nos primeiros três meses do ano, um crescimento de 33,7% face ao mesmo período de 2025, segundo dados da ACAP. O ritmo nacional não depende apenas das metas europeias, mas a chegada de novos modelos a preços mais acessíveis sim.
A proposta confidencial da ACEA está a ser debatida no Parlamento Europeu e no Conselho, em paralelo com a revisão das metas de emissões de CO2 e a proposta de lei europeia sobre frotas empresariais. A Comissão Europeia tem um pacote de medidas para a crise energética agendado para 22 de abril.






