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Confidencial: indústria pede aos ministros do ambiente da UE para baixar metas

A indústria automóvel europeia enviou uma carta aos ministros do Ambiente, a pressionar para diminuir as metas de redução de CO2.

Um documento confidencial enviado pela ACEA aos ministros europeus do Ambiente pede que as metas de redução de CO2 dos automóveis desça ainda mais.

Ouve o resumo do artigo:

Áudio gerado por IA

Resumo
Documento confidencial enviado em segredo aos ministros da UE
A ACEA pediu para suavizar as metas de CO2 sem divulgação pública. A T&E obteve e publicou o conteúdo.
74 mil milhões de euros em petróleo extra
Custo estimado para a Europa em importações de crude entre 2026 e 2035, se a proposta da ACEA for aceite.
Quota BEV estagnaria nos 52% em 2035
Em vez dos 100% previstos pela lei em vigor. A proposta da indústria atrasaria a chegada de modelos elétricos mais baratos.
Portugal já está nos 22,7% BEV em março
O ritmo nacional depende da chegada de novos modelos acessíveis, que são pressionados pelas metas europeias de emissões.

O documento confidencial

Concretamente, a associação dos fabricantes quer que as metas de redução de CO2 sejam calculadas numa média de cinco anos, em vez de três, e que o objetivo de redução desça dos 90% atuais para 80%.

O documento confidencial foi obtido pela Transport & Environment (T&E), que fez as contas: aceites, estas propostas custariam à Europa 74 mil milhões de euros em importações de petróleo extra entre 2026 e 2035.

A Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis (ACEA) enviou o documento às pastas de ministros do Ambiente de vários estados-membro em março, sem divulgação pública. A T&E obteve-o e tornou o seu conteúdo público.

O que quer a ACEA

A proposta tem dois eixos. Primeiro, que o cumprimento das metas de CO2 dos fabricantes passe a ser avaliado ao longo de cinco anos consecutivos, de 2028 a 2032, em vez dos três anos previstos na proposta da Comissão Europeia, que cobre 2030 a 2032. É uma alteração de formulação com efeito prático: abre espaço para vender mais veículos de combustão nos primeiros anos do período sem penalização imediata.

Segundo, a ACEA propõe baixar o objetivo de redução de emissões de 90% para 80%, com um sistema de créditos que permitiria compensar os 10% restantes através de materiais de baixo carbono, combustíveis sintéticos ou outras tecnologias não totalmente eléctricas. Segundo a análise da T&E, este mecanismo tornaria tecnicamente possível continuar a vender veículos não zero-emissões depois de 2035.

O custo em contas concretas

A T&E calculou o impacto financeiro directo. Com as metas actuais, os fabricantes são pressionados a elevar as vendas de BEV para cumprir os limites de CO2. Com a proposta confidencial da ACEA, essa pressão desaparece ou é mitigada.

Regulação · Mercado Europeu 2024–2035
Mais elétricos ou mais petróleo: os dois números da proposta da ACEA
Quota BEV europeia segundo a lei vigente vs proposta da ACEA, e custo acumulado em importações de petróleo extra se a proposta for aceite
Lei em vigor
Proposta ACEA
PT mar. 2026
0% 25% 50% 75% 100% 2024 2025 2026 2027 2035 13,6% 19% 28% 100% 52% PT 22,7% −48 p.p.
0 20 40 60 80 2027 2028 2030 2032 2035 ~12 ~20 ~39 ~56 74 mil M€ mil M€
74 mil M€
Custo acumulado em importações de petróleo extra entre 2026 e 2035, se a proposta da ACEA para enfraquecer as metas de CO2 dos automóveis for aceite pelos estados-membros da UE. Cada ano com menos elétricos significa mais crude importado.
Quota BEV europeia e custo acumulado em petróleo extra segundo proposta ACEA, 2024-2035
AnoQuota BEV lei vigente (%)Quota BEV proposta ACEA (%)Custo petróleo extra acumulado (mil M€)
202413,613,60
202519190
20262323~5
20272828~12
2028~20
2030~39
2032~56
20351005274
Portugal março 202622,722,7
Custo petróleo: estimativa acumulada T&E · valores intermédios interpolados
Fonte: T&E · ACEA · ACAP · EVMag

O resultado seria uma menor penetração de veículos eléctricos na Europa. A quota BEV ficaria, segundo os modelos da organização, nos 52% do mercado em 2035, em vez dos 100% previstos pela legislação vigente. Cada ponto percentual de quota perdida equivale a mais petróleo importado: o total acumulado é de 74 mil milhões de euros a mais em compras de crude entre 2026 e 2035.

As emissões adicionais chegariam a 2,4 gigatoneladas de CO2 entre 2026 e 2050, o equivalente a mais de cinco anos de emissões de toda a frota automóvel europeia actual.

O contexto em que o documento foi enviado

A proposta confidencial da ACEA chega num momento em que a Comissão Europeia já tinha cedido terreno. No pacote automóvel aprovado no final de 2025, a meta original de 100% de redução de emissões em 2035 foi substituída por um objetivo de 90%, com os restantes 10% a poderem ser compensados por créditos de materiais de baixo carbono. A ACEA pede agora um segundo recuo, sobre uma posição que já era uma concessão.

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O contexto energético complica a equação política. A guerra no Médio Oriente empurrou os preços do petróleo para níveis que colocam o litro de gasolina acima dos dois euros em vários países europeus, incluindo Portugal. Um conjunto de 31 organizações não-governamentais europeias, entre as quais a Oxfam, a WWF e a própria T&E, escreveu esta semana à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, pedindo um imposto extraordinário sobre os lucros excessivos das petrolíferas, a ser canalizado para famílias vulneráveis e transição energética.

“Os fabricantes de automóveis e o governo de Friedrich Merz estão a alimentar a dependência do petróleo da Europa num momento em que muitos europeus pagam 2 euros por litro de gasolina. Enquanto os condutores têm dificuldades em abastecer, a ACEA está a manobrar para atrasar a chegada dos veículos eléctricos mais acessíveis”, afirmou Isabell Büschel, directora da T&E Espanha.

Quota de carros elétricos pode estagnar

Em 2024, o mercado europeu de BEV tinha uma quota de 13,6%. Em 2025 chegou aos 19%. A T&E estima que, mantidas as metas actuais, a quota suba para 23% em 2026 e 28% em 2027. Com as metas enfraquecidas segundo a proposta da ACEA, a organização projecta que essa progressão abrande e a quota fique estagnada nos 21% durante a segunda metade da década.

Em Portugal, o mercado avança a um ritmo próprio. No primeiro trimestre de 2026, os BEV representaram 22,7% das matrículas de ligeiros de passageiros em março, com 44.484 ligeiros eletrificados registados nos primeiros três meses do ano, um crescimento de 33,7% face ao mesmo período de 2025, segundo dados da ACAP. O ritmo nacional não depende apenas das metas europeias, mas a chegada de novos modelos a preços mais acessíveis sim.

A proposta confidencial da ACEA está a ser debatida no Parlamento Europeu e no Conselho, em paralelo com a revisão das metas de emissões de CO2 e a proposta de lei europeia sobre frotas empresariais. A Comissão Europeia tem um pacote de medidas para a crise energética agendado para 22 de abril.

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