baterias baterias

As baterias dos carros elétricos ganham segunda vida: a nova indústria de milhares de milhões que está a nascer

O mercado de baterias de segunda vida está a dar os primeiros passos mas pode vir a tornar-se multimilionário.

O aproveitamento das baterias dos carros elétricos é um mercado que vai valer muito dinheiro.

Ouve o resumo do artigo:

Áudio gerado por IA

Resumo
10 MWh com mais de 100 baterias usadas
A Rivian alimenta a sua fábrica no Illinois com pacotes retirados dos próprios veículos, em parceria com a Redwood Materials.
Mercedes recupera 96% dos materiais da bateria
A fábrica de Kuppenheim usa método hidrometalúrgico e recicla 2500 toneladas de baterias por ano.
De 188 M$ para 5,86 mil milhões até 2033 na Europa
Crescimento anual de 41% no mercado europeu de baterias de segunda vida, impulsionado pela adoção de elétricos.
UE exige 70% de reciclagem de lítio até 2030
O Regulamento de Baterias da UE fixou metas escalonadas de recuperação de lítio, cobalto, níquel e cobre.

A segunda vida da bateria: do carro para a fábrica

São mais de 100 pacotes de baterias usados, integrados num sistema de 10 MWh instalado na unidade de Normal, no Illinois, em parceria com a Redwood Materials. A fábrica da Rivian é a primeira de um fabricante automóvel norte-americano a ter uma instalação deste tipo.

Em termos de capacidade, é o equivalente a mil unidades domésticas de armazenamento de energia ligadas em conjunto.

A Rivian fornece os pacotes de baterias à Redwood, que os integra num sistema de energia. A energia armazenada é utilizada diretamente na fábrica.

O objetivo imediato é reduzir custos operacionais. Durante períodos de pico de procura, a Rivian recorre à energia armazenada nas baterias de segunda vida para compensar o consumo de eletricidade mais cara, aliviando ao mesmo tempo a pressão sobre a rede.

O acordo resolve também um problema que todos os fabricantes de veículos elétricos vão inevitavelmente enfrentar: o que fazer com as devoluções de garantia, os protótipos e os pacotes de alta quilometragem que ainda têm vida útil mas já não servem o veículo

Em vez de seguirem diretamente para reciclagem, esses pacotes passam a ter uma segunda função económica.

A lógica por trás da solução

A Redwood Materials não é nova nesta área. No ano passado, a empresa construiu uma microrrede de 12 MW e 63 MWh a partir de 792 pacotes de segunda vida para alimentar um centro de dados de inteligência artificial.

A lógica técnica é simples: baterias retiradas dos veículos mantêm frequentemente mais de 50% da sua capacidade utilizável, suficiente para voltar a trabalhar antes da reciclagem. O fator peso e dimensão, que limita a aplicação automóvel, deixa de ser uma restrição quando a bateria passa para armazenamento estacionário.

“Quando uma bateria sai do carro, não está morta: está a mudar de função.”

“A procura de eletricidade está a acelerar mais depressa do que a rede consegue expandir”, disse JB Straubel, fundador e CEO da Redwood Materials. “A enorme quantidade de ativos de bateria já existentes nos EUA representa um recurso energético estratégico. A nossa parceria com a Rivian mostra como os pacotes de baterias de veículos elétricos podem ser transformados em recursos de energia disponíveis, colocando nova capacidade online rapidamente.”

A resposta europeia: reciclar, certificar e rastrear

Na Europa, o foco dos grandes fabricantes não é apenas dar uma segunda vida estacionária às baterias: é recuperar as matérias-primas que estão dentro delas e construir um quadro regulatório que torne todo o ciclo obrigatório e rastreável.

fábrica de reciclagem de baterias
Operário recolhe uma amostra durante o processo hidrometalúrgico @Mercedes-Benz

Em 2024, a Mercedes-Benz abriu uma fábrica de reciclagem de baterias em Kuppenheim, na Alemanha, recuperando mais de 96% dos materiais, incluindo lítio, cobalto, níquel e manganês. O processo passa por uma dissolução em diversas fases através de um método hidrometalúrgico a baixa temperatura, 80 graus Celsius, que permite recuperar os metais para fabricar os elétrodos das novas células, a parte mais cara de uma bateria. A fábrica tem como objetivo reciclar 2500 toneladas de baterias por ano.

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A Renault também conta com a unidade Refactory, dedicada a dar segunda vida às baterias que já não têm desempenho suficiente para os veículos elétricos, além de reciclar metais preciosos.

A lógica industrial por detrás desta corrida é económica antes de ser ambiental. A solução mais barata para ter acesso a lítio, cobalto, níquel e manganês para fabricar novas baterias passa por reciclar as antigas e recuperar esses metais. Cada tonelada reciclada é uma tonelada que não precisa de ser extraída nem importada, maioritariamente da China.

A regulação impõe o calendário

A União Europeia fixou uma meta de 70% de reciclagem do lítio usado em baterias até 2030. O Regulamento de Baterias aprovado em julho de 2025 estabeleceu novas regras para medir e verificar a eficiência da reciclagem e a recuperação de materiais. As metas de recuperação de materiais específicos são escalonadas: 90% para cobalto, cobre, chumbo e níquel até 2027, passando para 95% em 2031. Para o lítio, a meta é 50% até 2027 e 80% a partir de 2031.

Reciclagem · Metas e mercado
Reciclagem de baterias: de nicho a indústria de 70 mil milhões
Metas de recuperação de materiais impostas pela UE e crescimento do mercado global de reciclagem até 2040.
Receitas em 2025
2,5
mil milhões USD/ano
Projeção 2040
70
mil milhões USD/ano
Cobalto · Cobre · Níquel · Chumbo
Meta 2027
90%
Obrigatório para todos os recicladores na UE
Meta 2031
95%
Meta mais exigente da fase 2
Lítio
Meta 2027
50%
Lítio é mais difícil de recuperar
Meta 2031
80%
Alinhado com crescimento da procura de lítio
Baterias de lítio (incluindo EV)
Meta 2025
65%
Já em vigor
Meta 2030
70%
Fase seguinte do Regulamento de Baterias UE
Referência da indústria
Mercedes · Kuppenheim
96%
Método hidrometalúrgico · 2500 t/ano · acima de qualquer meta UE
×28
O mercado de reciclagem cresce 28 vezes entre 2025 e 2040
O salto maior acontece depois de 2030, quando os elétricos desta década chegam ao fim da vida. A Mercedes já ultrapassa as metas europeias de 2031 com o método hidrometalúrgico.
Metas de reciclagem e recuperação de materiais de baterias na União Europeia
IndicadorMeta 2025/2027Meta 2030/2031
Eficiência de reciclagem (baterias lítio)65%70%
Recuperação cobalto, cobre, níquel, chumbo90% (2027)95% (2031)
Recuperação lítio50% (2027)80% (2031)
Mercedes Kuppenheim (referência)96%96%
Mercado global reciclagem 20252,5 mil milhões USD
Mercado global reciclagem 2040 (proj.)70 mil milhões USD
Proj. · projeção · Metas vinculativas para operadores na UE
Fontes: Regulamento UE 2023/1542, McKinsey, Razão Automóvel · EVMag

A norma EN 18061:2025, publicada pelo CEN/CENELEC, complementa este quadro. Define que apenas oficinas certificadas, com pessoal treinado, ferramentas especializadas e documentação aprovada, estão autorizadas a preparar baterias para segunda vida. Cada bateria recebe um número de identificação único e toda a informação de rastreabilidade tem de constar do passaporte de bateria.

A conformidade baseia-se na marcação CE: para baterias de menor dimensão é uma autodeclaração; para baterias de veículos elétricos é necessário um organismo ser notificado quando os requisitos de pegada de carbono e conteúdo reciclado entram em vigor. Não há um operador privado único com poder de veto sobre o processo, ao contrário do modelo americano, onde o custo de certificação por tipo de bateria foi estimado em 1,2 milhões de dólares.

O dado em falta: o histórico da bateria

O mesmo regulamento aborda diretamente o principal obstáculo ao mercado de segunda vida: o acesso aos dados. Quando uma bateria sai de um veículo, o fabricante retém o acesso ao software de gestão da bateria, o sistema que regista toda a história de carga, temperatura e degradação. Um operador de segunda vida tem de realizar testes extensivos para avaliar o estado real de cada bateria.

A maior barreira identificada pelos operadores europeus em 2025 continua a ser precisamente esta: a ausência de dados de estado de saúde consistentes nas baterias que entram no circuito de retorno. Sem esses dados precisos, reutilizar baterias em larga escala permanece um risco de conformidade em vez de uma oportunidade de receita.

baterias na linha de montagem com o código QR | imagem gerada por IA
As baterias vão ter passaporte a parte de 2027 | imagem gerada por IA

A partir de fevereiro de 2027, todas as baterias de veículos elétricos colocadas no mercado europeu terão de ter um passaporte digital em formato QR, com dados atualizados sobre o estado de saúde da bateria, acessíveis a operadores de reciclagem e de segunda vida. Até lá, muitos operadores ainda precisam de melhorar os seus sistemas de registo ao longo da vida da bateria. Sem esses registos, a norma EN 18061:2025 existe em papel mas o mercado não tem ainda os dados para a tornar operacional em escala.

As aplicações para baterias de segunda vida

Há também um limite de aplicação que raramente se menciona. As baterias de segunda vida funcionam bem em contextos de ciclos pouco frequentes: alimentação de emergência em edifícios comerciais, armazenamento em postos de carregamento para absorver picos de consumo da rede, sistemas de apoio industrial. Funcionam menos bem em ciclos diários intensivos, como armazenamento doméstico de energia solar ou serviços de regulação de frequência da rede elétrica. A bateria já está parcialmente degradada: cada ciclo adicional encurta a vida útil restante.

Posto móvel de carregamento da Galp que utiliza baterias de segunda vida
O projeto-piloto da Galp utiliza baterias de segunda vida @Galp

Em Portugal, a Galp já testou modelos de segunda vida em contexto real. Em 2024, a empresa lançou o projeto “Second Life Batteries” em parceria com a BeePlanet e a BMW, num posto em Alcalá de Henares, em Madrid: um sistema com capacidade de 368 kWh, ligado a dois carregadores de 180 kW, capaz de carregar consecutivamente até nove veículos com potência mínima da rede.

Mais recentemente, instalou em Vigo o primeiro carregador elétrico móvel da Europa com 240 kW, utilizando baterias de segunda vida para otimizar a gestão da rede e responder a picos sazonais de procura.

Um mercado a crescer perto de 45% ao ano

Os dados de mercado confirmam a escala da mudança em curso.

A reciclagem de baterias é hoje um negócio de nicho. Em 2025, as receitas globais do setor ficaram nos 2,5 mil milhões de dólares. A projeção da McKinsey para 2040 é de 70 mil milhões de dólares por ano, um crescimento de quase 30 vezes em quinze anos. Esse salto deverá ser impulsionado a partir de 2030, altura em que muitos dos elétricos lançados no início desta década chegam à idade da reforma.

O mercado europeu de baterias de segunda vida estava avaliado em 188,3 milhões de dólares em 2023. A estimativa para 2033 é de 5,86 mil milhões de dólares, com uma taxa de crescimento anual composta de 40,93%.

Mercado · 2023–2040
Segunda vida das baterias: o mercado que está a nascer
Barras: valor do mercado europeu e global (mil milhões USD). Linha: projeção de longo prazo até 2040.
Mercado europeu
Mercado global
Projeção 2040
200 160 120 80 40 Mil M$ 2023 2025 2033 2040* 0,2 ~1 5,9 10,5 224 mil M$
×31
O mercado global multiplica por 31 entre 2025 e 2040
Na Europa, o crescimento é de 41% ao ano até 2033. O salto maior acontece a partir de 2030, quando os elétricos lançados no início da década chegam ao fim da primeira vida.
Mercado global e europeu de baterias de segunda vida, 2023–2040
AnoMercado europeu (mil M USD)Mercado global (mil M USD)
20230,190,78
2025~0,91,14
20335,8610,5
2040 (projeção)n/d224
* Projeção de longo prazo · Valores em mil milhões USD
Fontes: BIS Research, Verified Market Reports, Roots Analysis · EVMag

À escala global, o mercado estava avaliado em cerca de 1,14 mil milhões de dólares em 2025, com uma projeção de crescimento anual de 45,2% até 2033.

Até 2030, as estimativas apontam para que os EUA necessitem de implantar mais de 600 GWh de armazenamento para responder ao crescimento da procura de pico. Esse volume equivale à produção total da barragem Hoover durante dois meses consecutivos.

Quando uma bateria sai do carro, não está morta: está a mudar de função. O valor residual desse ativo é real, quantificável e começa a entrar nos modelos de negócio dos fabricantes.

Para o comprador de um carro elétrico, isso tem uma implicação direta: o custo total de propriedade do veículo deverá passar a refletir, também, o valor da bateria depois do carro.

Perguntas e respostas:

Baterias de segunda vida · FAQ
O que acontece às baterias quando saem do carro elétrico?
P
O que acontece a uma bateria de elétrico quando é retirada do carro?
Quando uma bateria já não serve para o carro, não está necessariamente no fim da vida. As baterias mantêm mais de 50% a 80% da capacidade original quando são retiradas dos veículos. Esse nível de energia é insuficiente para garantir a autonomia de um elétrico, mas é mais do que suficiente para armazenar energia em aplicações estacionárias: fábricas, postos de carregamento ou sistemas ligados a fontes renováveis.
P
Para que aplicações servem as baterias de segunda vida?
Funcionam melhor em contextos de ciclos pouco frequentes: alimentação de emergência em edifícios comerciais, armazenamento em postos de carregamento para absorver picos de consumo da rede ou sistemas de apoio industrial. A Rivian usa-as para alimentar a própria fábrica no Illinois com um sistema de 10 MWh. Funcionam menos bem em ciclos diários intensivos, como armazenamento doméstico de energia solar, porque a bateria já está parcialmente degradada e cada ciclo adicional encurta a vida útil restante.
P
O que está a União Europeia a fazer para regulamentar este mercado?
O Regulamento de Baterias da UE (2023/1542) estabelece metas obrigatórias de reciclagem e recuperação de materiais. Para o lítio, a meta é de 50% até 2027 e 80% a partir de 2031. Para cobalto, cobre e níquel, as metas são de 90% em 2027 e 95% em 2031. A partir de fevereiro de 2027, todas as baterias de veículos elétricos terão de ter um passaporte digital com o histórico de estado de saúde, acessível a operadores de segunda vida e reciclagem. A norma EN 18061:2025 define quais as oficinas autorizadas a preparar baterias para segunda vida.
P
Quanto vale o mercado europeu de baterias de segunda vida?
Em 2023 valia 188 milhões de dólares. A estimativa para 2033 é de 5,86 mil milhões de dólares, com uma taxa de crescimento anual de cerca de 41%. À escala global, o mercado de reciclagem de baterias estava em 2,5 mil milhões de dólares em 2025 e pode chegar a 70 mil milhões em 2040, segundo a McKinsey. O salto maior acontece a partir de 2030, quando os elétricos lançados no início desta década chegam ao fim da primeira vida.
P
Portugal está envolvido neste tema?
A Galp já testou soluções de segunda vida na Península Ibérica. Em 2024 lançou o projeto “Second Life Batteries” em parceria com a BeePlanet e a BMW, num posto em Alcalá de Henares, Madrid: um sistema de 368 kWh ligado a dois carregadores de 180 kW, capaz de carregar consecutivamente até nove veículos com potência mínima da rede. Mais recentemente instalou em Vigo o primeiro carregador elétrico móvel da Europa com 240 kW, também com baterias de segunda vida, para gerir picos sazonais de procura.

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