Seis minutos e 27 segundos. Este é o tempo que a nova bateria Shenxing III, da CATL, demora a carregar de 10% a 98%.
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A resistência interna é a chave
Ultrapassar a barreira dos dez minutos exige resolver um problema físico antes de qualquer outro: o calor. Quando uma bateria absorve corrente a alta velocidade, a resistência interna converte parte dessa energia em calor. Se a resistência for demasiado elevada, o calor gerado danifica as células ou, no extremo, provoca fuga térmica.
A CATL resolveu-o por baixo: a Shenxing III tem uma resistência interna média de 0,25 miliohmios. A média do setor está nos 0,5 miliohmios.
A diferença, de 50%, é o que permite absorver uma taxa de carga equivalente a 10C com um pico de 15C sem comprometer a durabilidade. Ao fim de 1.000 ciclos completos, a retenção de capacidade mantém-se acima de 90%.
LFP sem compromissos de velocidade
A Shenxing III é uma bateria de fosfato de ferro-lítio, a mesma química que equipa os modelos de entrada de marcas como Tesla, BYD e a versão base do Volvo EX30.
Já conheces?
O LFP é mais seguro e mais barato do que o NMC (níquel-manganês-cobalto), mas historicamente mais lento a carregar: a estrutura cristalina do fosfato de ferro limita a taxa de intercalação dos iões de lítio.
A segunda geração da Shenxing, apresentada em abril de 2025, já chegara a 12C de pico. A terceira geração sobe para 15C.
Para atingir estes números, a CATL trabalhou em três frentes simultâneas: menor produção de calor durante a operação, propagação térmica mais eficiente entre células, e controlo de temperatura com maior precisão.
O cientista-chefe Wu Kai foi explícito na Tech Day: “O LFP está a aproximar-se do limite teórico de densidade energética, o que o torna mais adequado para um roteiro tecnológico centrado no carregamento ultrarrápido, de forma a alcançar o equilíbrio ideal”, afirmou. A aposta desta geração é, por isso, na velocidade de carga, não na autonomia.
O que acontece a menos 30 graus
Um dos problemas clássicos do carregamento ultrarrápido no inverno é que a bateria fria resiste ao fluxo de iões. A maioria dos sistemas de aquecimento de bateria usa resistências elétricas: sobem a temperatura cerca de 1 grau Celsius por minuto. Em climas frios, isso significa esperar vários minutos antes de poder carregar a alta potência.
“O LFP está a aproximar-se do limite teórico de densidade energética.”
Wu Kai cientista-chefe, CATL
A Shenxing III usa aquecimento por impulso (pulse rapid heating): a bateria aplica correntes de curta duração sobre si própria para gerar calor nas células antes de o carregamento externo começar. O resultado: a menos 30 graus, o carregamento de 20% a 98% demora 9 minutos.
E não é necessário nenhum posto de carregamento especializado: o sistema funciona em qualquer ponto compatível com a tensão e a potência do veículo.
Shenxing III contra Blade Battery 2.0
A BYD apresentou a segunda geração da Blade Battery em março de 2026, com a tecnologia Flash Charge. A Blade Battery 2.0 carrega de 10% a 70% em cinco minutos e de 10% a 97% em nove minutos. A CATL responde com três minutos e 44 segundos para os mesmos 10% a 80%, e 6 minutos e 27 segundos para os 10% a 98%.

Na janela de referência comum (10% a 80%), a diferença é de cerca de um minuto a favor da CATL. As estratégias de infraestrutura são distintas: a BYD comprometeu-se com 20.000 postos Flash Charge até ao final de 2026, todos de propriedade da marca. A CATL apoia-se em operadores terceiros e numa rede integrada de carga e troca de bateria (Choco-Swap) que deverá cobrir 190 cidades chinesas com 4.000 estações até ao final do ano.
Tesla, Volvo e XPeng com baterias CATL
A CATL não é apenas um nome na imprensa especializada. Vários modelos à venda em Portugal já usam células suas.
O Tesla Model 3 Tração Traseira e o Model Y Tração Traseira, os de entrada de gama, estão equipados com células LFP da CATL desde 2023, com a variante LMFP a chegar com o facelift de 2025. A BMW iX3 50 xDrive, o primeiro Neue Klasse disponível em Portugal, usa células cilíndricas 4695 fornecidas pela CATL na fábrica de Debrecen.
O Volvo EX30 na versão base usa células LFP produzidas pela VREMT, subsidiária da CATL constituída em joint-venture com a Geely; as versões Extended Range e Twin Motor usam NMC de outro fornecedor. O XPENG P7+ chegou ao mercado europeu com células CATL confirmadas pela marca no lançamento.
A fábrica da CATL em Figueruelas, perto de Saragoça, está prevista para o final de 2026. Quando estiver operacional, a produção de células em solo ibérico encurtará a cadeia de fornecimento para os construtores europeus.






