Saí há pouco da Alfândega do Porto com uma certeza: o Salão do Automóvel Híbrido e Elétrico (SAHE) já não cabe lá dentro.
A 10.ª edição do Salão do Automóvel Híbrido e Elétrico junta 45 marcas no Centro de Congressos, até domingo, 18 de outubro. No primeiro salão eram apenas uma mão-cheia.
Nessa altura, a Alfândega fazia todo o sentido: um edifício com história, central, bonito, à medida de um evento que ainda estava a descobrir o seu público. Havia espaço para andar à volta dos carros, abrir portas, sentar ao volante sem pedir licença a ninguém.
Hoje é outra conversa.
Os carros mal se veem. Estão encostados uns aos outros, enfiados entre colunas, com filas de visitantes à frente que tapam a vista a quem vem atrás. As pessoas atropelam-se nos corredores. Quem quer olhar com atenção para um modelo tem de esperar a sua vez, e quando lá chega, tem alguém a empurrar pelas costas.
Para um salão que vive de deixar o público ver, tocar e comparar, isto é um problema sério.
Não sou só eu a dizê-lo. Falei com vários diretores e responsáveis de marca no evento e a opinião é consensual: não têm espaço para fazer uma boa exposição dos carros. Quem investe para estar num salão quer mostrar o produto como deve ser. Na Alfândega, mostra-o como pode.
E o público não vai diminuir. No ano passado, a nona edição recebeu 22.290 visitantes e somou mais de 2.500 experiências de condução. Com o interesse pelos carros elétricos a crescer, é de esperar que este fim de semana passe ainda mais gente pela Alfândega. Mais gente no mesmo espaço.
Há muito para ver. Entre as estreias nacionais estão o novo Volksvagen ID. Cross, o Kia EV2, o Mercedes-Benz Classe C elétrico e o Audi A2 e-tron, modelos que muita gente veio ao Porto de propósito para conhecer ao vivo. Merecem ser vistos com espaço à volta. A maioria, neste momento, não o têm.
Percebo a organização. A Alfândega é a casa do SAHE desde o início, e há uma tradição a proteger. Há também uma identidade: o salão nasceu ali, cresceu ali, e mudar de casa tem sempre um custo, logístico e simbólico.
Mas a tradição não pode ser a razão para manter um evento num sítio onde ele, objetivamente, já não cabe.
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O crescimento do SAHE é uma boa notícia. É sinal de que o mercado de elétricos em Portugal amadureceu. As marcas querem estar presentes e o público aparece. Há novos protagonistas que multiplicaram a oferta. O salão acompanhou essa evolução. O espaço, não.
E a tendência é clara. O mais provável é que a próxima edição tenha ainda mais marcas e mais visitantes, não menos. A pressão sobre a Alfândega só vai aumentar.
Um salão automóvel que não deixa ver os carros perde a razão de existir.
A organização fez um trabalho notável ao trazer o SAHE até aqui. O passo seguinte é admitir que o evento cresceu mais do que a casa onde nasceu. Não é uma derrota. É a prova de que o projeto resultou.
A Alfândega foi o sítio certo para começar. Para continuar, já não chega.

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