Em quatro semanas, o preço da gasolina em Portugal subiu 13,7% e o do gasóleo 26,9%. As consultas a carros elétricos usados cresceram 54%. A ligação é direta.
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O conflito que chegou às bombas de gasolina
A guerra no Irão eclodiu a 28 de fevereiro. Nos dias que se seguiram, o tráfego no Estreito de Ormuz foi perturbado: é por aí que passa cerca de 20% das exportações globais de petróleo. Os efeitos chegaram às bombas de combustível com rapidez. Dados da Comissão Europeia mostram que o preço médio da gasolina na UE passou de 1,64 euros por litro para 1,84 euros entre 23 de fevereiro e 16 de março. Uma subida de 12% em menos de quatro semanas.
Portugal não foi exceção, e teve mesmo um aumento superior à média europeia.
Na véspera do ataque norte‑americano e israelita ao Irão, um litro de gasóleo custava 1,60€ e a gasolina simples 951,68€; Apenas 22 dias depois, segundo Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), o gasóleo passou para 2,05E por litro (mais 43 cêntimos, um salto próximo de 27%) e a gasolina para 1,92€ (mais 23 cêntimos, uma subida em torno de 14%).
Portugal lidera o salto europeu na procura por elétricos usados
Os condutores responderam de forma que as plataformas de automóveis usados conseguiram medir com precisão.
A plataforma OLX, com sede em Amesterdão, reportou à Reuters que a procura por elétricos usados subiu 54% Portugal. É o valor mais alto entre os países europeus incluídos no levantamento: França registou 50%, a Roménia 40%, a Polónia 39%.

“O que é particularmente revelador é que o interesse nos elétricos já estava a crescer antes dos acontecimentos recentes”, afirmou Christian Gisy, CEO da OLX, citado pela agência de notícias. “A instabilidade parece ter acelerado uma transição que já estava em curso.”
Portugal parte de uma posição de partida favorável nesta corrida. Em 2025, os veículos 100% elétricos representaram 23,2% das vendas de automóveis ligeiros de passageiros, acima dos 20,5% de 2024. A quota está bem acima da média europeia. A rede de carregamento público cresceu 30% no último ano.
O mercado de usados reage mais rápido
A Reuters recolheu declarações de várias plataformas europeias. O retrato é consistente em todos os mercados. Há uma maior procura de carros elétricos usados.

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Na Noruega, o analista Terje Dahlgren foi direto: “Há atualmente uma verdadeira febre de carros elétricos no mercado de usados.” Os elétricos ultrapassaram os diesel como tipo de combustível mais vendido no Finn.no.
Na Suécia, a plataforma Blocket registou um crescimento de 11% nas vendas de elétricos usados nas primeiras duas semanas de março face às duas semanas anteriores, com as visualizações de modelos elétricos a subirem 17%. “Vemos uma mudança clara, com mais pessoas a procurar ativamente alternativas mais eficientes em termos de consumo”, disse Marcin Stepman, especialista de automóvel da Blocket.
“Há atualmente uma verdadeira febre de carros elétricos no mercado de usados”
Terje Dahlgren Analista, Finn.no – maior plataforma de usados da Noruega
Na Alemanha, o mobile.de, maior plataforma de automóveis usados do país, indicou que a quota de pesquisas por elétricos usados triplicou desde o início de março: passou de 12% para 36%. Os concessionários alemães receberam 66% mais pedidos de informação sobre elétricos usados do que em fevereiro.
A firma britânica de dados Marketcheck forneceu à Reuters números que documentam “uma escalada clara e sustentada” nas vendas de EV usados desde o início do conflito. “Considerando os prazos de uma compra de veículo, esperamos que este momentum continue à medida que o mercado absorve totalmente o impacto dos acontecimentos recentes”, afirmou Alastair Campbell, vice-presidente de crescimento da Marketcheck.
Já conheces?
Por que o mercado de usados reage primeiro
Os elétricos usados têm duas vantagens imediatas face aos novos: custam até 40% menos e estão disponíveis para entrega imediata. Um carro novo pode demorar meses a chegar. Quando o preço do combustível sobe de forma abrupta, o consumidor que quer agir rapidamente vai ao mercado de usados.
Em França, o retalhista online Aramisauto viu a quota de elétricos nas suas vendas quase duplicar: era de 6,5% na semana de 16 de fevereiro; chegou a 12,7% na semana de 9 de março. A fabricante MG, do grupo chinês SAIC, não tardou a capitalizar o momento: lançou anúncios nas redes sociais em França com a mensagem “pode ser altura de repensar a forma como conduz”.
O alargamento do mercado de elétricos usados europeu tem sido facilitado por outro fator: a proliferação dos certificados de saúde da bateria. Nos últimos dois anos, estes documentos tornaram-se mais comuns nas transações de segunda mão, reduzindo a incerteza dos compradores sobre o estado das baterias dos modelos mais antigos.
O que muda a partir daqui
A guerra no Irão não tem data de fim à vista, apesar de existirem negociações. O ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano declarou hoje que o país não procura a guerra e quer um fim permanente do conflito, mas as rotas de abastecimento de petróleo continuam com perturbações. Os preços da gasolina na Europa não devem recuar para os valores de fevereiro no curto prazo.
Para Portugal, que em 2025 registou 56.156 novas matrículas de veículos elétricos a bateria (mais 34,5% face a 2024), o efeito pode ser duplo: mais entradas no mercado de usados à medida que os primeiros proprietários de elétricos renovam os seus veículos, e mais compradores a procurar precisamente esses modelos
O crescimento de 54% nas consultas OLX é um indicador precoce: a procura está a crescer antes de as vendas o refletirem nos dados oficiais.






