Os mesmos indicadores estatísticos que detetam transições irreversíveis em sistemas climáticos confirmam o ponto de viragem dos carros elétricos na União Europeia e na China.
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O que mediu o estudo
O motor de combustão entrou numa trajetória de declínio que já não se reverte sem intervenção exterior, conclui um estudo publicado na Nature Communications.
2.452 modelos de automóveis. 32 países. Sete anos de dados, entre 2016 e 2023. A equipa de Jean-François Mercure, da Universidade de Exeter, obteve os números das vendas na MarkLines e foi buscar os preços modelo a modelo aos sítios dos fabricantes na China, Estados Unidos, Alemanha, França, Reino Unido e Índia.
Quase quatro em cada cinco modelos analisados ainda eram a combustão (1.901), contra 329 totalmente elétricos e 222 híbridos plug-in.
Os dados mostram que a frota global de carros elétricos e híbridos plug-in duplica a cada ano e meio, com tempos de duplicação mais agressivos nos três grandes mercados: 1,0 ano na China, 1,3 anos na União Europeia e 1,7 anos nos Estados Unidos. O custo das baterias caiu mais de 85% desde 2010 e continua a ser o principal motor da descida dos preços dos veículos elétricos.
Como se confirma um ponto de viragem
Os autores aplicaram aos dados de mercado os mesmos indicadores estatísticos que os climatólogos usam para detetar transições críticas em sistemas naturais: a autocorrelação com lag-1 e a variância das séries temporais. Quando estes dois indicadores aumentam em simultâneo, o sistema antigo está a perder resiliência e aproxima-se de um ponto de não-retorno.
Já conheces?
Na União Europeia (somatório de Alemanha, Reino Unido e França) e na China, ambos os indicadores subiram fortemente antes de 2020. O mercado dos carros de combustão começou a cair em 2019 e não recuperou na Europa após a pandemia.
Nos Estados Unidos, o teste falhou. Não há sinal claro de perda de resiliência do mercado de combustão antes de 2020 e as vendas de automóveis tradicionais voltaram a subir parcialmente depois da pandemia.
Carros elétricos: quando chega a paridade de preços
Sem alterações de política, o modelo FTT:Transport usado pelos autores projeta que os elétricos atingem a paridade de preço de compra com os carros de combustão entre 2025 e 2028 na União Europeia e na China, entre 2026 e 2030 nos Estados Unidos, Canadá e Coreia do Sul, e entre 2030 e 2035 no resto do mundo.
A paridade no custo total de propriedade (TCO), que inclui combustível e manutenção ao longo da vida útil, já foi alcançada nos mercados líderes para a maioria dos carros elétricos, assumindo uma taxa de desconto do consumidor igual ou inferior a 20%.

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A diversidade de modelos é outro indicador chave. A oferta de carros elétricos cresce mais de 30% por ano nos mercados líderes, enquanto a oferta de modelos de combustão atingiu um pico e está em queda em todos os mercados analisados. É um dos sinais mais fortes de que os fabricantes estão a transferir capital industrial: uma vez convertidas as linhas de produção, voltar à combustão torna-se demasiado caro, independentemente do preço do petróleo.
Subsídios sozinhos não chegam
O estudo publicado na Nature Communications analisa quatro pacotes diferentes de política pública. Subsídios à compra de carros elétricos e impostos sobre combustíveis, postos a trabalhar sem mais nada, têm efeito reduzido enquanto a oferta de elétricos no mercado for limitada: o consumidor responde aos incentivos quando tem opções para comprar, e durante anos não teve.
Os mandatos de venda resolvem o lado da oferta mas não garantem que alguém entre no concessionário. As normas de eficiência de combustível tiram de circulação os carros mais sedentos, sem fazer da eletrificação a alternativa óbvia.
Aplicar os três ao mesmo tempo, com um calendário firme para o fim dos motores de combustão, é o único cenário em que o setor automóvel cumpre as metas de emissões zero a 2050. A paridade de custo total de propriedade já atingida nos mercados líderes abre uma janela política nova: a partir do momento em que comprar um carro elétrico fica mais barato ao longo da vida útil do carro, os subsídios à compra perdem justificação económica, de acordo com os autores do estudo.
O que muda no mercado global do petróleo
O pico mundial da procura de petróleo desloca-se para antes de 2030, ou pouco depois, na trajetória atual. É uma das implicações que os autores tiram do modelo. Cortar combustível importado liberta poder de compra em economias que dependem dele, sobretudo nos países em desenvolvimento sem reserva fóssil própria. As economias que vivem da venda de petróleo bruto têm o problema inverso: quebra na receita fiscal, défice externo, instabilidade financeira em tempos curtos.
A Índia foi um dos casos modelados em detalhe. Mantida a trajetória atual, as poupanças em importações de combustível chegam aos 75 mil milhões de dólares por ano em 2030. Em 2040, a estimativa quase duplica, até 140 mil milhões anuais.






