Carros elétricos circulam no terreiro do paço, em Lisboa Carros elétricos circulam no terreiro do paço, em Lisboa

Estudo confirma irreversibilidade dos carros elétricos na UE e China

Um novo estudo confirma que a transição para carros elétricos já é um movimento irreversível.

Os mesmos indicadores estatísticos que detetam transições irreversíveis em sistemas climáticos confirmam o ponto de viragem dos carros elétricos na União Europeia e na China.

Ouve o resumo do artigo:

Áudio gerado por IA

Resumo
UE e China cruzaram o ponto de viragem
A substituição dos motores de combustão é irreversível nos dois mercados líderes, conclui a Nature Communications.
Método aplicado: indicadores climáticos
Autocorrelação e variância nas vendas, os mesmos sinais usados para detetar transições críticas no clima.
Paridade de preço entre 2025 e 2028
Na UE e na China, o elétrico iguala o preço do combustão sem alterações de política, segundo o modelo FTT:Transport.
Subsídios sozinhos não chegam
Só a combinação com mandatos de venda e regulação de eficiência cumpre as metas de 2050.

O que mediu o estudo

O motor de combustão entrou numa trajetória de declínio que já não se reverte sem intervenção exterior, conclui um estudo publicado na Nature Communications.

2.452 modelos de automóveis. 32 países. Sete anos de dados, entre 2016 e 2023. A equipa de Jean-François Mercure, da Universidade de Exeter, obteve os números das vendas na MarkLines e foi buscar os preços modelo a modelo aos sítios dos fabricantes na China, Estados Unidos, Alemanha, França, Reino Unido e Índia.

Quase quatro em cada cinco modelos analisados ainda eram a combustão (1.901), contra 329 totalmente elétricos e 222 híbridos plug-in.

Os dados mostram que a frota global de carros elétricos e híbridos plug-in duplica a cada ano e meio, com tempos de duplicação mais agressivos nos três grandes mercados: 1,0 ano na China, 1,3 anos na União Europeia e 1,7 anos nos Estados Unidos. O custo das baterias caiu mais de 85% desde 2010 e continua a ser o principal motor da descida dos preços dos veículos elétricos.

Como se confirma um ponto de viragem

Os autores aplicaram aos dados de mercado os mesmos indicadores estatísticos que os climatólogos usam para detetar transições críticas em sistemas naturais: a autocorrelação com lag-1 e a variância das séries temporais. Quando estes dois indicadores aumentam em simultâneo, o sistema antigo está a perder resiliência e aproxima-se de um ponto de não-retorno.


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Na União Europeia (somatório de Alemanha, Reino Unido e França) e na China, ambos os indicadores subiram fortemente antes de 2020. O mercado dos carros de combustão começou a cair em 2019 e não recuperou na Europa após a pandemia.

Nos Estados Unidos, o teste falhou. Não há sinal claro de perda de resiliência do mercado de combustão antes de 2020 e as vendas de automóveis tradicionais voltaram a subir parcialmente depois da pandemia.

Carros elétricos: quando chega a paridade de preços

Sem alterações de política, o modelo FTT:Transport usado pelos autores projeta que os elétricos atingem a paridade de preço de compra com os carros de combustão entre 2025 e 2028 na União Europeia e na China, entre 2026 e 2030 nos Estados Unidos, Canadá e Coreia do Sul, e entre 2030 e 2035 no resto do mundo.

A paridade no custo total de propriedade (TCO), que inclui combustível e manutenção ao longo da vida útil, já foi alcançada nos mercados líderes para a maioria dos carros elétricos, assumindo uma taxa de desconto do consumidor igual ou inferior a 20%.

carros eletricos irreversibilidade

Infografia gerada por IA

A diversidade de modelos é outro indicador chave. A oferta de carros elétricos cresce mais de 30% por ano nos mercados líderes, enquanto a oferta de modelos de combustão atingiu um pico e está em queda em todos os mercados analisados. É um dos sinais mais fortes de que os fabricantes estão a transferir capital industrial: uma vez convertidas as linhas de produção, voltar à combustão torna-se demasiado caro, independentemente do preço do petróleo.

Subsídios sozinhos não chegam

O estudo publicado na Nature Communications analisa quatro pacotes diferentes de política pública. Subsídios à compra de carros elétricos e impostos sobre combustíveis, postos a trabalhar sem mais nada, têm efeito reduzido enquanto a oferta de elétricos no mercado for limitada: o consumidor responde aos incentivos quando tem opções para comprar, e durante anos não teve.

Os mandatos de venda resolvem o lado da oferta mas não garantem que alguém entre no concessionário. As normas de eficiência de combustível tiram de circulação os carros mais sedentos, sem fazer da eletrificação a alternativa óbvia.

Aplicar os três ao mesmo tempo, com um calendário firme para o fim dos motores de combustão, é o único cenário em que o setor automóvel cumpre as metas de emissões zero a 2050. A paridade de custo total de propriedade já atingida nos mercados líderes abre uma janela política nova: a partir do momento em que comprar um carro elétrico fica mais barato ao longo da vida útil do carro, os subsídios à compra perdem justificação económica, de acordo com os autores do estudo.

O que muda no mercado global do petróleo

O pico mundial da procura de petróleo desloca-se para antes de 2030, ou pouco depois, na trajetória atual. É uma das implicações que os autores tiram do modelo. Cortar combustível importado liberta poder de compra em economias que dependem dele, sobretudo nos países em desenvolvimento sem reserva fóssil própria. As economias que vivem da venda de petróleo bruto têm o problema inverso: quebra na receita fiscal, défice externo, instabilidade financeira em tempos curtos.

A Índia foi um dos casos modelados em detalhe. Mantida a trajetória atual, as poupanças em importações de combustível chegam aos 75 mil milhões de dólares por ano em 2030. Em 2040, a estimativa quase duplica, até 140 mil milhões anuais.

Perguntas e respostas:

Ponto de viragem · FAQ
O que diz o estudo da Nature sobre o futuro dos elétricos
P
O que é exatamente o “ponto de viragem” dos carros elétricos?
É o momento a partir do qual a transição se torna autopropagada: os elétricos passam a substituir os motores de combustão sem necessidade de novos incentivos ou políticas públicas. Os fabricantes deixam de investir nas linhas antigas, a oferta de modelos a combustão começa a desaparecer e o regresso à tecnologia anterior fica demasiado caro, mesmo que o preço do petróleo volte a cair.
P
Como é que os investigadores conseguem dizer que a transição já é irreversível?
A equipa da Universidade de Exeter aplicou aos dados de mercado os mesmos indicadores estatísticos que a climatologia usa para detetar transições críticas em sistemas naturais: autocorrelação com lag-1 e variância das séries temporais. Quando ambos sobem em simultâneo, o sistema antigo está a perder resiliência. Na União Europeia (Alemanha, Reino Unido e França) e na China, os dois indicadores mostraram subidas fortes antes de 2020, com valores elevados de Mann-Kendall tau. O estudo analisou 2.452 modelos em 32 países entre 2016 e 2023.
P
Quando é que os carros elétricos vão custar o mesmo que os de combustão?
Sem alterações de política, o modelo do estudo projeta paridade no preço de compra entre 2025 e 2028 na União Europeia e na China, entre 2026 e 2030 nos Estados Unidos, Canadá e Coreia do Sul, e entre 2030 e 2035 no resto do mundo. A paridade no custo total de propriedade, que inclui combustível e manutenção ao longo da vida útil, já foi atingida nos mercados líderes para a maioria dos elétricos.
P
Porque é que o estudo diz que os Estados Unidos ainda não chegaram lá?
Nos Estados Unidos, os indicadores de perda de resiliência do mercado de combustão antes de 2020 são inconclusivos. As vendas de automóveis tradicionais voltaram a subir parcialmente depois da pandemia, ao contrário do que aconteceu na Europa e na China, onde a queda iniciada em 2019 não foi revertida. O tempo de duplicação das vendas elétricas também é mais lento, 1,7 anos contra 1,0 na China e 1,3 na União Europeia.
P
Os subsídios à compra ainda fazem sentido se a transição é irreversível?
Sim, mas apenas até à paridade de preço. O estudo mostra que subsídios sozinhos não chegam: enquanto a oferta de elétricos for limitada, os incentivos têm pouco efeito porque o consumidor não tem o que comprar. Só a combinação de subsídios, mandatos de venda e regulação de eficiência permite cumprir as metas climáticas para 2050. Os autores notam que a paridade de custo total de propriedade já atingida nos mercados líderes torna possível discutir o fim dos apoios à compra.

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