Entre 140 e 200 milhões de euros por ano é a receita que a Infraestruturas de Portugal (IP) admite perder se a quota de mobilidade elétrica chegar aos 20% a 30% em 2030. A UVE, associação dos utilizadores de veículos elétricos, considera irreal este cenário do estudo da AMT.
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Cenário de quebra vem da Infraestruturas de Portugal
Ana Paula Vitorino, presidente da Autoridade da Mobilidade e dos Transportes (AMT), apresentou o Estudo Estratégico “Financiamento da Rede Rodoviária” a 29 de setembro, em Carnaxide. O documento responde ao artigo 204.º da Lei do Orçamento do Estado para 2026, foi acompanhado pelo Ministério das Infraestruturas e Habitação e segue para a Assembleia da República.

Grande parte do dinheiro das estradas sai hoje dos combustíveis. Em 2025, a Consignação de Serviço Rodoviário, a fatia do ISP que vai diretamente para a IP, rendeu 691 milhões de euros, perto de 20% de toda a receita do imposto. É sobre essa parcela que o estudo coloca o efeito da eletrificação, e a estimativa de 140 a 200 milhões de euros a menos por ano é atribuída no documento à própria IP.
Renovação do parque limita a quota de elétricos
O parque de ligeiros de passageiros em Portugal ronda os 6,2 milhões de veículos. No final de 2025, os 100% elétricos eram pouco mais de 3% desse total, de acordo com a UVE.
A associação faz a conta à velocidade de substituição: mesmo que todos os carros novos vendidos fossem elétricos, a renovação anual do parque ficaria pelos 5%. Quatro anos a esse ritmo somam 20 pontos percentuais.
Por isso, a UVE quer que a quota de 20% a 30% em circulação em 2030 seja lida como “cenário de stress extremo e não como uma premissa razoável”.
As vendas crescem, mas partem de uma base pequena. Em julho de 2026 foram matriculados 10.229 veículos 100% elétricos de todas as categorias, dos quais 7.085 novos e 3.144 usados importados, segundo os dados mensais da UVE, depois de um recorde de 12.045 unidades em junho.
Quota de elétricos não equivale a combustível poupado
Uma percentagem de elétricos no parque não corresponde à mesma percentagem de combustível que deixa de ser vendido, argumenta a UVE. Contam a composição do parque, o tipo de veículo e os quilómetros que cada um faz por ano.
Eletrificar 20% dos ligeiros de passageiros pesa muito menos no consumo do que eletrificar a mesma fatia de pesados de mercadorias, que fazem com frequência centenas de milhares de quilómetros por ano e gastam muito mais por quilómetro. A esmagadora maioria dos elétricos em circulação são ligeiros de passageiros, pelo que a receita perdida por cada elétrico novo fica abaixo do que a quota sugere.
Com infraestrutura de carregamento, custo de aquisição, perfis de utilização, oferta de modelos e necessidades energéticas próprios, os pesados não acompanham a curva dos ligeiros, e extrapolar uma para os outros levaria, segundo a UVE, a sobrestimar a quebra de receita dos combustíveis fósseis.
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Cobrança por quilómetro começa nos pesados
O estudo propõe uma transição em três fases. Até 2028, estabilizar os mecanismos atuais e aprovar um Plano Estratégico para a Rodovia Nacional; entre 2028 e 2032, introduzir de forma gradual instrumentos ligados à utilização da estrada; até 2040, consolidar um modelo híbrido que junte receitas de utilização, fiscalidade e financiamento público.
Na segunda fase entra a taxação por quilómetro percorrido, o chamado road pricing, que a AMT quer dirigir sobretudo aos veículos pesados e comerciais, pela intensidade com que usam a infraestrutura. O documento invoca ainda o princípio da neutralidade tecnológica e defende que a própria Consignação de Serviço Rodoviário seja revista à luz da transição energética.
Tributação dos veículos elétricos sem calendário
Portugal atravessa um período de instabilidade energética, e a UVE entende que a prioridade das políticas públicas deve ser acelerar a eletrificação dos transportes. Por isso, a associação escreve que “é contraditório criar, nesta fase, sinais que possam antecipar uma retirada de incentivos” à mobilidade elétrica.
A UVE aceita que a eletrificação obrigue a repensar o financiamento das estradas, desde que a discussão aconteça no momento certo, com dados da transição real e com todas as partes ouvidas. Lembra também que um estudo prospetivo “não deve ser confundido com uma decisão de política fiscal”.
Nas 141 páginas do estudo da AMT não há nenhum imposto, taxa ou calendário dirigido especificamente aos ligeiros elétricos.
Fontes: UVE, comunicado de imprensa de 7 de outubro de 2026 (documento enviado à redação); AMT, apresentação do Estudo Estratégico “Financiamento da Rede Rodoviária”; AMT, estudo completo; UVE, vendas de veículos elétricos em julho de 2026.




