Em França, são os fornecedores de energia quem paga os apoios à compra de carros elétricos. A solução permite incentivos mais robustos sem custos para o Estado.
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França com plano ambicioso
Dez mil milhões de euros por ano até 2030: foi este o compromisso anunciado a 10 de abril pelo primeiro-ministro francês Sébastien Lecornu para acelerar a transição energética do país. Em Portugal, o aviso de incentivo à compra de elétricos aberto em dezembro de 2025 está encerrado. Não há nova fase anunciada.
O plano de Lecornu cobre muito mais do que os carros. Os 10 mil milhões por ano destinam-se a toda a eletrificação do país: veículos elétricos, infraestrutura de carregamento, aquecimento residencial e indústria. A ambição declarada é reduzir a dependência de combustíveis fósseis de 60% para 40% do consumo total de energia até 2030.
O gatilho foi geopolítico. A guerra no Médio Oriente paralisou parte da navegação no Estreito de Ormuz e fez subir os preços dos combustíveis. “Enquanto dependermos de petróleo e gás, continuaremos a pagar o preço das guerras de outras pessoas”, disse Lecornu.
Como funciona o apoio francês à compra de elétricos

Em França, quem compra um elétrico novo pode receber até 5.700 euros de ajuda direta se o rendimento for baixo; com rendimentos mais elevados, o valor desce para à volta de 3.500 euros. O teto de preço elegível está nos 47.000 euros por veículo.
O desconto não sai do orçamento do Estado. Desde 1 de julho de 2025, o bonus écologique francês foi substituído por um mecanismo diferente: os fornecedores de energia, como as empresas de eletricidade, gás e combustíveis, são obrigados por lei a financiar projetos que reduzam o consumo energético no país. Cumprir essa obrigação dá-lhes certificados que provam que fizeram a sua parte.
Já conheces?
A compra de um elétrico passou a contar como um desses projetos. Na concessionária, o vendedor trata de toda a papelada com o fornecedor de energia; o comprador apresenta o comprovativo de rendimentos e o desconto é aplicado diretamente no preço.
A mudança aconteceu porque o orçamento do Estado para o bónus esgotou a meio de 2025 e o governo precisou de uma forma de manter os apoios sem peso no défice.

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O leasing social
Para quem não pode comprar, há ainda o leasing social. A nova edição abre em junho, para 50.000 famílias com rendimento fiscal de referência até 16.300 euros anuais. A mensalidade fica entre 100 e 150 euros, sem entrada inicial.
O valor do apoio do Estado por veículo vai de 6.500 euros a 9.500 euros, dependendo de onde o carro é fabricado: motor produzido na Europa vale mais 500 euros, motor e bateria europeus empurram o total para o máximo.
Outros 50.000 lugares estão reservados para profissionais que percorrem longas distâncias para trabalhar, como cuidadores ao domicílio.
O que existe em Portugal
Em Portugal, o incentivo é de 4.000 euros por veículo 100% elétrico novo, com um teto de 38.500 euros. É obrigatório abater um automóvel a combustão com mais de dez anos.
O programa mais recente, o Aviso n.º 06/2025 do Fundo Ambiental, abriu a 29 de dezembro de 2025 com 17,625 milhões de euros e esgotou em horas.
A ministra do Ambiente e Energia tinha anunciado a abertura de um novo aviso em março, mas o anúncio de Maria da Graça Carvalho foi feito antes das tempestades.
A diferença de escala
Portugal tem isenção de ISV e de IUC para elétricos, o que representa uma poupança real na compra, independentemente do modelo. Mas as isenções fiscais não são suficientes para quem não tem capacidade para comprar o carro.
O programa de incentivo direto opera por aviso, com verbas que esgotam em dias. A dotação do último aviso cobriu apenas 2.200 particulares, menos do que o número de carros elétricos vendido num mês.
A ACEA, associação europeia dos fabricantes, indica que os BEV representaram 18,8% do mercado europeu nos dois primeiros meses de 2026, acima dos 15,2% de 2025. Em Portugal, a quota chegou aos 22,7% em março, acima da média da União Europeia.





