Amesterdão, Florença, Estocolmo, Edimburgo. A lista de cidades que baniram a publicidade a combustíveis fósseis no espaço público cresce a um ritmo que poucos antecipavam.
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O movimento, comparado cada vez mais à luta histórica contra a publicidade ao tabaco, chegou já a mais de 50 municípios em todo o mundo, e levanta questões que vão muito além da climatologia: quem tem o direito de anunciar o quê, e em que espaços comuns?
A Haia foi a primeira, mas não ficou sozinha
Haia foi a primeira cidade do mundo a proibir publicidade a produtos de elevada pegada carbónica através de lei local, em 2024. A medida abrangia cruzeiros, voos, contratos de energia fóssil e automóveis com motor de combustão.
O passo pioneiro teve um efeito de contágio imediato nos Países Baixos, e rapidamente o debate ultrapassou fronteiras.

Em janeiro de 2026, Amesterdão tornou-se a primeira capital do mundo a consagrar em lei uma proibição deste tipo, com entrada em vigor a 1 de maio.
A decisão foi aprovada pela câmara municipal por 27 votos contra 17, e vai mais longe do que a de A Haia: além dos combustíveis fósseis, a proibição abrange também a publicidade a produtos de carne, voos, cruzeiros, veículos a gasolina ou gasóleo e contratos de aquecimento a gás em todos os espaços públicos da cidade, incluindo os transportes públicos.
O porquê de proibir publicidade a combustíveis fósseis
Robert Barker, vice-presidente da câmara de Haia, tem sido uma das vozes mais activas neste debate. “Como Cidade Internacional da Paz e da Justiça e cidade importante para as Nações Unidas, achamos importante mostrar que levamos a sério o combate à crise climática. Por isso é um pouco estranho ter muita publicidade fóssil no espaço público enquanto dizemos às pessoas que devemos reduzi-la”, afirmou à BBC Future.

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A comparação com o tabaco não é retórica vaga. “Fumar destrói os nossos pulmões, os combustíveis fósseis destroem os pulmões do planeta. Por que havemos de estimular algo com um impacto devastador?”, questionou Barker.
A diretora de saúde pública e clima da Organização Mundial de Saúde, Maria Neira, partilha esta visão, descrevendo os combustíveis fósseis como o “novo tabaco” e argumentando que este tipo de publicidade normaliza e promove comportamentos insustentáveis.
De Edimburgo a Florença: uma vaga europeia
O fenómeno não se limita aos Países Baixos. Em 2024, Edimburgo proibiu a publicidade de empresas petrolíferas, companhias aéreas, aeroportos, automóveis a combustão e navios de cruzeiro em espaços publicitários municipais, como paragens de autocarro e ecrãs digitais. Sheffield seguiu o mesmo caminho, incluindo ainda qualquer conteúdo “que possa razoavelmente ser considerado como promotor de mais voos”. Em fevereiro de 2026, Portsmouth juntou-se também ao grupo.
Florença tornou-se a primeira cidade italiana a aprovar uma proibição de publicidade a combustíveis fósseis no espaço público, numa votação de 18 contra 3.
O vereador responsável pela medida justificou a decisão com palavras precisas: “Não pretendemos julgar ou condenar escolhas individuais, mas sim reduzir a exposição coletiva a modelos de consumo baseados em combustíveis fósseis que prejudicam o ambiente e a saúde. É um ato de responsabilidade para com os nossos cidadãos e para com os compromissos que Florença assumiu de alcançar a neutralidade carbónica até 2030.”
Estocolmo integra igualmente a lista de cidades com proibição em vigor, tal como Saint-Gilles, na Bélgica.
A nível nacional, a França foi o primeiro país europeu a aprovar uma lei nacional que proíbe a publicidade a produtos energéticos diretamente ligados a combustíveis fósseis, embora com limitações: o gás natural, classificado como energia verde pela UE, ficou excluído da proibição.
Publicidade, comportamento e receitas: os dados que sustentam o movimento
Um dos argumentos mais poderosos a favor das proibições vem de uma experiência já feita: em 2019, Londres baniu a publicidade a alimentos ultra processados na sua rede de transportes.
Já conheces?
O resultado foi uma redução de cerca de 1.000 calorias por semana nas compras das famílias em média, e as receitas publicitárias não caíram, tendo mesmo aumentado à medida que outros anunciantes preencheram os espaços.
A lógica aplica-se, dizem os defensores das proibições, ao sector dos combustíveis fósseis.
Inquérito revela apoio
Um inquérito de 2024 realizado pelo projeto europeu CAPABLE, que abrangeu mais de 19.000 pessoas em 13 Estados membro da UE, revelou que 46,6% apoiam a proibição de publicidade a combustíveis fósseis no espaço público, contra apenas 24,9% que se opõem.
O apoio foi transversal a todas as faixas etárias e níveis de escolaridade, e foi especialmente forte na Grécia, Itália, França e Espanha.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, afirmou em 2024 que a indústria dos combustíveis fósseis difunde informação climática distorcida, com agências de publicidade e relações públicas a funcionar como forças cúmplices, e apelou a todos os países para que imponham uma proibição completa à publicidade do sector.
De Londres à Austrália
Os ativistas climáticos têm agora os olhos postos em Londres, onde a operadora de transportes Transport for London (TfL) gere um dos maiores patrimónios publicitários do mundo. Em novembro, o presidente da câmara Sadiq Khan concordou em rever a política publicitária da TfL para avaliar se poderia ser mais verde.

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No outro lado do mundo, a Austrália conta já com 19 jurisdições que votaram ou implementaram algum nível de restrição à publicidade de combustíveis fósseis, incluindo Sydney, a sua maior cidade.
A fronteira digital
A grande batalha por vencer é, porém, a do espaço digital. As proibições atuais incidem maioritariamente sobre publicidade exterior, paragens de transportes e mobiliário urbano. A regulação das plataformas online permanece, em grande medida, fora do alcance das câmaras municipais, e será provavelmente o próximo campo de confronto entre ativistas, autarcas e a indústria.
O modelo é, afinal, o mesmo que funcionou com o tabaco: primeiro as restrições locais, depois as leis nacionais, eventualmente a norma global. A questão é saber se o ritmo será suficientemente rápido.





