A Citroën confirma que está a desenvolver um citadino elétrico no espírito da 2CV. O Citroën 2CV elétrico tem a meta de chegar abaixo dos 15.000€.
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O espírito do 2 CV, sem a forma do 2 Cavalos
Quando Pierre-Jules Boulanger desenhou em 1936 o caderno de encargos do TPV (Toute Petite Voiture), o objetivo era simples: transportar quatro agricultores e 50 quilos de batatas, a baixa velocidade, com consumo mínimo.
O modelo nasceu em 1948 e produziu mais de cinco milhões de unidades até 1990. É essa função, não a silhueta arredondada nem os faróis redondos, que Xavier Chardon, CEO da Citroën, quer recuperar no novo projeto.
“O que importa mais do que o 2CV é perceber a função que o carro tinha na altura”, afirmou Chardon ao Autocar.
“Era levar a mobilidade às massas depois da Segunda Guerra Mundial. Era transportar quatro agricultores debaixo do mesmo tejadilho e poder carregar 50 quilos de batatas. Não tenho a certeza de que esse caderno de encargos se traduza a 100% nos dias de hoje, em particular porque temos cada vez menos agricultores na Europa.”
O défice europeu de três milhões
Faltam três milhões de matrículas anuais ao mercado europeu de automóveis novos face ao período pré-pandemia. É esse o défice citado por Chardon, que atribui 60% dessa quebra a um único fator: a ausência de modelos novos por menos de 15.000 euros. Enquanto os Estados Unidos, a China e a América do Sul já recuperaram para os volumes que tinham antes do covid, a Europa continua aquém.

Em paralelo, a idade média do parque automóvel europeu subiu mais de dois anos na última meia década, ultrapassando os doze anos. Os condutores deixam de comprar novo e prolongam a utilização do que já têm. O cálculo da Citroën é direto: quem não tem hoje carro novo no orçamento, também não tem elétrico novo no orçamento, e a transição estagna por baixo.
A comparação que Chardon faz é com o final dos anos 1940. A 2CV, o Fiat 500, o VW Carocha e o Austin Mini reanimaram o mercado europeu depois da Segunda Guerra. O argumento implícito é que a Europa de 2026 precisa de uma nova geração desses modelos, agora elétrica.
Já conheces?
A categoria M1E e a fábrica europeia
A Comissão Europeia está a finalizar uma nova categoria regulatória, designada M1E, desenhada precisamente para tornar viável a produção de citadinos elétricos baratos.
O texto ainda está em discussão técnica, mas duas exigências já estão fixadas: o veículo tem de medir menos de 4,2 metros de comprimento e tem de ser montado dentro da União Europeia. Estados-membro podem apoiar a produção local de baterias dentro do bloco económico, e o objetivo declarado de Bruxelas é acelerar a oferta de elétricos europeus abaixo dos 25.000 euros antes de subsídios, faixa onde a oferta atual é magra e está dominada por marcas chinesas.

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A plataforma técnica do novo Citroën deverá ser a “Smart Car”, a mesma que serve hoje o Citroën C3, o C3 Aircross e o Fiat Grande Panda, com versões a combustão e elétrica. É uma arquitetura desenhada de origem para reduzir custos, com partilha de componentes entre modelos da Stellantis.
O 2CV elétrico está a ser desenhado para entrar dentro deste perímetro.
Paris como palco
Em Paris, em outubro, deverá ser apresentado o concept. O Salão Automóvel da capital francesa é o palco escolhido, e a escolha não é neutra: foi também em Paris, em 1948, que a 2CV original foi mostrada ao público pela primeira vez. A Citroën joga a carta dupla da memória e do contexto industrial.
A direção de design está a cargo de Pierre Leclercq, que tem usado a expressão “neo-retro” para descrever a abordagem em curso. A referência cruzada é o Renault 5 elétrico, lançado em 2024, com mais de 120.000 encomendas registadas e períodos em que liderou as vendas a particulares de elétricos na Europa.
A Citroën reconhece o sucesso da estratégia da Renault, mas Chardon traça um limite. “Nostalgia pela nostalgia não é uma solução milagrosa.” A 2CV elétrica vai partilhar o ADN funcional, não a fotografia do original.
O que isto significa para Portugal
Em Portugal, o segmento abaixo dos 15.000 euros desapareceu do catálogo dos elétricos com a mesma rapidez com que desapareceu da combustão. O Dacia Spring é, há vários anos, o único BEV à venda oficialmente em Portugal abaixo dos 20.000 euros, e está sozinho nessa faixa baixa do mercado.
Um Citroën 2CV elétrico abaixo dos 15.000 euros, mesmo sem incentivos, criaria pela primeira vez uma alternativa direta ao Spring num segmento onde o mercado português tem milhares de potenciais compradores que ainda hoje só compram usado de combustão.
O caderno de encargos do novo Citroën, segundo Chardon, já não é o do agricultor com batatas. “O agricultor pode dar lugar a um enfermeiro”, disse ao Autocar.






