A imagem mais partilhada do Ferrari Luce nas redes sociais não é a do carro. É uma fotografia lado a lado com o Apple Magic Mouse, o periférico mais ridicularizado do catálogo da Apple. Quem fez a montagem teve uma intuição certeira. Não há acaso na semelhança.
A Ferrari apresentou o Luce a 25 de maio em Roma, no edifício da Vela de Calatrava. É a estreia elétrica da marca depois de quase oitenta anos de motores a combustão. Berlina de cinco lugares, quatro motores (um por roda), bateria NMC de 122 kWh, 530 quilómetros de autonomia anunciados em norma WLTP, carregamento DC até 350 kW. Preço de partida: cerca de 550 mil euros.
No dia seguinte à apresentação, as ações da Ferrari na bolsa de Milão caíam 8%.
Pela primeira vez na história da casa, a Ferrari entregou a direção criativa de um modelo de produção a uma equipa externa. O Centro Stile de Maranello, dirigido por Flavio Manzoni, acompanhou o processo, mas o trabalho de fundo coube à LoveFrom, o estúdio fundado em 2019 por Jony Ive depois de sair da Apple, ao lado do designer industrial australiano Marc Newson.
Foram cinco anos de colaboração. O presidente John Elkann descreveu a aposta como “inovação de processo”: ir buscar fora aquilo que dentro de casa, talvez por excesso de tradição, não viria.
Se o Apple Car tivesse ido para a frente…
Não conhecemos o briefing exato que a administração da Ferrari deu a Ive e a Newson. Mas há vários indícios de que foi carta branca. Em comunicação oficial sobre o Luce, a própria Ferrari escreveu que a LoveFrom teve “o espaço criativo para definir a direção do projeto desde o início”. Quem conhece o trabalho de Ive sabe o que isso significa.
Jony Ive fez no Luce aquilo que sempre fez. Uma única superfície contínua, sem aresta a que o olho se possa agarrar. Uma “concha” de vidro a cobrir o tejadilho e a descer pelos vidros laterais até quase ao chão. Painéis de alumínio reciclado a delimitar a parte inferior, com um perfil em “asa” à frente e atrás. No interior, a famosa redução: poucos elementos, alumínio anodizado, vidro reforçado, botões mecânicos com tolerâncias de relojoaria, dois painéis OLED sobrepostos com ponteiros físicos entre eles para um conta-quilómetros que muda de função consoante o que o condutor quer ver. É tudo extraordinariamente belo. E é tudo Apple.
Se a Apple não tivesse desistido do seu carro elétrico em fevereiro de 2024, depois de uma década de desenvolvimento e mais de dez mil milhões de dólares queimados, ele seria, com razoável probabilidade, assim. O Ferrari Luce é, em larga medida, o Apple Car que Tim Cook deixou cair, agora com cavalinho ao peito.
Um Ferrari não é um telefone
A receção em Itália não foi suave. Luca di Montezemolo, presidente da Ferrari entre 1991 e 2014, declarou à imprensa italiana, que esperava que tirassem o símbolo do cavalino rampante do carro. Disse mais: que o Luce põe em risco o “mito Ferrari”. Montezemolo é hoje membro do conselho da rival McLaren, é certo, e isso deve ser dito ao leitor. Mas ouvir o ex-presidente histórico da casa a sugerir que o emblema saia do carro não é coisa que se faça por descuido. É declaração pensada.
Carlo Calenda, que trabalhou na fábrica de Maranello entre 1998 e 2004 e é hoje figura política em Itália, classificou o Luce como “um insulto estético e tecnológico para quem ama a Ferrari”. A revista americana Edmunds, dificilmente classificável como passadista, comparou o desenho a uma barra de sabão. E o ensaísta polaco Pawel Klasa escreveu a frase que melhor resume o que está em causa: “Um Ferrari não é um telefone.”
Há defesa possível. O InsideEVs argumentou que esta unanimidade negativa é estranha, que a Ferrari não toma decisões deste calibre sem estudos de mercado, e que o Purosangue, o quatro portas da casa apresentado em 2022, foi recebido com escárnio semelhante e hoje tem lista de espera. Tudo isto pode ser verdade. Mas o Purosangue, apesar da silhueta inédita para Maranello, continua a parecer Ferrari à distância. O Luce, sem o cavalinho, não diz Ferrari a ninguém. Diz outra coisa.
E aqui chegamos ao ponto que ultrapassa a Ferrari. A transição para o elétrico está a forçar todos os construtores a uma decisão difícil, que é decidir o que fazer com a identidade visual herdada do motor a combustão. A Porsche escolheu manter, e os Taycan e Macan elétrico são reconhecíveis como Porsche à primeira vista. A Hyundai escolheu inventar uma linguagem nova, e a família IONIQ é hoje uma das identidades visuais mais consistentes do mercado. A Ferrari, surpreendentemente para uma casa que vive da memória, escolheu inventar. E não inventou em casa. Foi pedir a um designer cujo dicionário visual já estava escrito, em Cupertino, ao longo de vinte e sete anos.
O resultado era previsível para quem conhece o trabalho de Ive. A admiração que tenho pelo que ele fez na Apple é genuína, e é precisamente por isso que se vê tão depressa que o trabalho continua com a mesma formatação. Um bom designer convidado faz síntese entre o seu vocabulário e o do anfitrião. Ive não fez síntese. Jony Ive entregou Jony Ive .
Já conheces?
Falta agora saber se o Luce é o primeiro capítulo de uma linguagem elétrica Ferrari, ou um desvio que Maranello vai corrigir nos modelos seguintes. As próximas duas ou três entradas elétricas da casa dirão se a Ferrari aceitou o que Jony Ive lhe entregou, ou se este foi um teste que correu mal.
Quando se contrata o homem que criou a linguagem visual da Apple para desenhar um Ferrari, não se pode ficar genuinamente surpreendido com o que sai do estirador. Sai um iPhone. Jony Ive não traiu a Ferrari, fez aquilo que sabe fazer, e fê-lo provavelmente muito bem.
O problema é outro, e é o problema que a Ferrari devia ter equacionado antes de assinar o contrato com a LoveFrom. A linguagem visual da Apple é a linguagem mais bem-sucedida da história do design de consumo. Vende telefones, computadores, relógios e auscultadores aos milhões. A pergunta que ficou por fazer em Maranello é se essa linguagem é apelativa para quem gasta 550 mil euros num Ferrari. As primeiras reações sugerem que talvez não seja.





