262.000 mortes evitadas até 2023. É o saldo que um estudo publicado na revista Nature Health atribui à massificação dos carros elétricos e de outros veículos de nova energia em 150 cidades chinesas, a partir de observação por satélite.
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Neste artigo:
Como o estudo chegou aos números de mortes evitadas
A equipa cruzou imagens de satélite de alta resolução com técnicas de aprendizagem automática para medir a qualidade do ar nas 150 cidades ao longo de uma década, entre 2013 e 2023. O objetivo foi isolar a parcela da poluição atribuível ao trânsito e, dentro dela, o efeito da entrada dos veículos elétricos.
Os dados de circulação vieram do Ministério da Segurança Pública chinês e do anuário estatístico do país, cruzados com a meteorologia para descontar o efeito do clima. As medições incidiram sobre o ar junto às estradas, onde o impacto dos tubos de escape é mais direto.
Com este método, os autores separaram a contribuição dos veículos de nova energia de outras causas de variação da poluição urbana. A indústria e o aquecimento doméstico ficaram de fora da conta atribuída aos automóveis.
Trabalhos anteriores tinham estimado os ganhos possíveis da eletrificação por via de modelos. Aqui, a medição parte de dados observados ao longo de dez anos, não de projeções.

Menos partículas, menos mortes
Até 2023, as partículas finas (PM2.5) nas cidades analisadas tinham recuado 23,80%, menos 8,97 microgramas por metro cúbico de ar. O monóxido de carbono caiu ainda mais, 30,67%.
A partir desta melhoria, o modelo estimou em 262.000 as mortes evitadas não acidentais e de 75.000 mortes por todas as causas. A exposição prolongada a partículas finas está associada a AVC, doenças cardíacas, cancro do pulmão e doenças respiratórias.

Nem todos os poluentes recuaram por igual
O recuo não foi uniforme entre poluentes.
O dióxido de azoto (NO2) desceu apenas 1,81 microgramas por metro cúbico e a redução das partículas mais grossas também ficou baixa.
Os autores apontam uma causa concreta. Os camiões pesados continuam em larga medida por eletrificar e respondem por boa parte do NO2 e das partículas grossas que ficam suspensas no ar das cidades.
O que conta como elétrico no estudo
O trabalho não isola só os elétricos a bateria. A categoria chinesa de veículos de nova energia agrega os elétricos a bateria (BEV), os híbridos plug-in (PHEV) e os modelos a hidrogénio, e é a esse conjunto que as 262.000 mortes evitadas são atribuídas.
Já conheces?
O BEV é a fatia maior e em crescimento, mas o estudo não separa o contributo de cada tecnologia.
Benefícios concentrados nas cidades ricas
Os ganhos não chegaram a todos por igual.
Concentraram-se nas cidades economicamente mais desenvolvidas, onde a adoção de carros elétricos foi mais rápida. Nas regiões de menor rendimento, a melhoria da qualidade do ar foi bem menor. O fosso acompanha a velocidade desigual a que os elétricos substituíram os carros a combustão dentro do próprio país.
A conclusão dos investigadores é direta: para alargar os benefícios para a saúde, a China tem de acelerar a eletrificação dos pesados a gasóleo e de levar os veículos de nova energia às regiões mais pobres.
Um efeito que não é só chinês
O efeito não aparece só na China. Um estudo publicado em janeiro de 2026 na Lancet Planetary Health, por uma equipa da Universidade do Sul da Califórnia, mediu uma descida dos níveis de dióxido de azoto em zonas residenciais à medida que aumentava o número de veículos de emissões zero registados. A análise cobriu os anos de 2019 a 2023.
Na Europa, a qualidade do ar é um dos argumentos a favor do fim da venda de automóveis novos a combustão marcado para 2035. Várias cidades europeias já operam zonas de emissões reduzidas que limitam a entrada dos veículos mais poluentes. O trânsito rodoviário é uma das principais fontes de dióxido de azoto nas cidades europeias.
O maior mercado do mundo
A China é o maior mercado de carros elétricos do mundo e o ritmo de adoção continua a subir. Em 2025, as vendas a retalho de veículos de nova energia rondaram os 12,8 milhões de unidades, segundo a Associação Chinesa de Automóveis de Passageiros, com os elétricos a bateria a ganhar terreno aos híbridos plug-in ao longo do ano. No total do ano, estes veículos valeram 50,8% das vendas de automóveis novos no país, segundo a associação setorial CAAM.
A BYD ultrapassou a Tesla em vendas de elétricos a bateria pela primeira vez e tornou-se o maior vendedor mundial do segmento, com mais de 2,2 milhões de unidades vendidas em 2025.
O estudo da Nature Health foi publicado a 13 de maio de 2026 e tem como primeira autora Qianqian Yang, da Universidade Baptista de Hong Kong, com coautores de universidades chinesas e de Harvard.






