A rede pública de carregamento vai deixar de depender de uma única porta de entrada. A MOBI.E apresentou hoje, em Lisboa, o Mobi.Hub, uma plataforma de roaming onde operadores de pontos de carregamento (OPC) e prestadores de serviços de mobilidade elétrica (EMSP) fecham acordos comerciais diretamente entre si e resolvem, no mesmo sistema, as divergências sobre o que foi cobrado em cada carregamento.
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Da mobilidade elétrica a toda a mobilidade
António Veiga Ferrão, presidente do conselho de administração da MOBI.E, abriu a apresentação com a empresa dividida em dois tempos. No carregamento, a MOBI.E garante hoje uma conta para qualquer posto, harmoniza práticas entre mais de 100 operadores e disponibiliza dados de forma aberta; para amanhã, quer o mesmo em toda a mobilidade, com um único suporte para qualquer transporte, standards de bilhética e um gestor de dados de mobilidade.
A atividade passa a estar arrumada em três áreas: a mobilidade elétrica, o transporte público, onde o objetivo é colocar o passageiro no centro da rede, e o MOBI.Data, a plataforma de dados do setor. Num dos diapositivos, a empresa define-se como a infraestrutura invisível da mobilidade, e Ferrão apresentou-a como o braço tecnológico do Estado para essa área.

Segundo o comunicado, o Mobi.Hub e o Mobi.Charge fazem parte de uma agenda mais vasta, que abre a empresa a novos setores, a começar pelo transporte público.
A mudança chega também à marca, com uma assinatura nova, “Ligamos a mobilidade”, e uma linguagem comum para todos os produtos. Na apresentação, o desafio aparece descrito como ir além da mobilidade elétrica sem perder o reconhecimento construído em 15 anos de rede.
O que muda com o Mobi.Hub
Até agora, a interoperabilidade em Portugal assentava num princípio simples: um cartão dava acesso a todos os postos ligados à mesma plataforma nacional. Com a liberalização, a Mobi.e muda de funções e lança o Mobi.Hub, que mantém esse acesso universal, mas passa a funcionar como ponto de ligação entre empresas que negoceiam as suas próprias condições.
Um OPC pode fazer uma oferta igual para todos os EMSP ou acordos individuais, escolhendo os postos, os EVSE e os conectores abrangidos, com datas de validade e descontos.
A adesão está aberta a quem já está ligado à MOBI.E e a quem não está, incluindo operadores estrangeiros nas mesmas condições dos portugueses, com migração gradual e, segundo a empresa, sem impacto para quem carrega.
“A solução hoje apresentada pretende responder de forma direta aos pedidos do mercado”, afirmou Sílvia Amaral, administradora da MOBI.E responsável pela mobilidade elétrica.
Disputas tratadas no Mobi.Hub
Cada sessão de carregamento gera um registo, o CDR, que serve de base à faturação entre quem opera o posto e quem vende o serviço ao condutor. Quando uma das partes contesta esse registo, abre-se uma disputa.
No Mobi.Hub, esse processo passa a correr dentro da própria plataforma, num módulo que a MOBI.E já tem disponível e que apresentou como uma das duas grandes novidades do lançamento.
O fluxo tem sete estados, desde a abertura até ao encerramento, passando pela análise, pela espera de aceitação e, se não houver acordo, pela escalada. Quem responde pode propor novos valores, que aparecem lado a lado com os originais, e juntar à proposta de resolução um texto e anexos até 30 MB. Cada passo fica registado com data e hora, e cada entidade pode configurar a forma como revê os processos.
Só as partes envolvidas veem cada disputa; a MOBI.E, enquanto gestora do hub, vê todas. Quando há acordo, o CDR é alterado na plataforma.
Em conferência de imprensa preparatória, António Veiga Ferrão, presidente do conselho de administração da MOBI.E, colocou as disputas entre os três ou quatro temas que os operadores apontaram como críticos, ao lado das parcerias e campanhas feitas dentro do hub e do Plug & Charge. Resolvidos esses pontos, “não vejo grande motivo, objetivamente, para procurar outras soluções”, disse.
Lei acaba com a rede única
Por trás da mudança está o Decreto-Lei n.º 93/2025, publicado em agosto do ano passado, que liberalizou o setor. Os operadores passaram a poder montar redes próprias sem ligação obrigatória a uma rede comum, e desapareceu a figura do comercializador de eletricidade para a mobilidade elétrica.
O período de transição terminava a 31 de dezembro de 2026. Em julho, o Decreto-Lei n.º 155/2026 empurrou esse prazo para 31 de dezembro de 2027, com o argumento de que perto de 70% dos pontos de carregamento estão abrangidos por contratos de concessão que precisam de ser revistos. Até lá, a MOBI.E continua a assegurar a plataforma de carregamento, e os OPC com postos já instalados têm de indicar se querem retirar todos ou alguns deles da rede.
Do lado da MOBI.E, Ferrão garantiu que “um utilizador do dia 1 de janeiro de 2028 não tem que sentir nenhum impacto”. Os operadores têm outras adaptações pela frente: hoje é a MOBI.E que separa os consumos de energia de cada posto para os donos dos espaços onde estão instalados, como um restaurante, e no novo regime deixa de o fazer.
Segundo António Veiga Ferrão, a primeira reação dos operadores foi reservada, mas os contactos mais recentes indicam que preferem ligar-se a um intermediário a adaptar sistemas empresa a empresa; as minutas dos contratos só ficam disponíveis a partir da próxima semana.
Na apresentação, a empresa resumiu o estado da rede com números do MOBI.Data relativos a agosto de 2026: mais de 16.300 pontos de carregamento públicos, mais de 837 mil utilizadores ativos e 5,4 pontos por cada 100 veículos elétricos. As sessões de carregamento cresceram 31% num ano.
- Gestão automática de disputas
- Acordos entre pares (P2P)
- Ligação direta OPC e EMSP
- Normalização e validação de dados
- APIs, painéis e alarmes
- Reporte à EADME
- Faturação como serviço
- Ligação a hubs internacionais
- Roaming com Espanha
- Integração OCPP e certificação de firmware
- Gestão remota da operação
- APIs, painéis e monitorização
- Reporte à EADME
- Plug & Charge
- Aplicação de marca branca para EMSP
- Faturação como serviço
- Preços dinâmicos com gestão de carga
- Nova versão dos alarmes
- Mercado de parceiros e serviços
- Protocolos com CP, Metro de Lisboa, Metro do Porto, TML, TMP, Transtejo e Soflusa e Metro Mondego
- Acordos com autoridades de transporte em curso
- Concurso no final de 2026
- Testes no 1.º semestre de 2027
- Teto de preço equivalente ao passe
Acordos entre operadores e Espanha
Assente no protocolo OCPI, nas versões 2.2 e 2.2.1, o Mobi.Hub trata da ligação direta entre OPC e EMSP, da normalização e validação de dados, de painéis de controlo com alarmes e do reporte à EADME. As condições do módulo de acordos entre pares, a outra novidade destacada, são aplicadas automaticamente aos CDR enviados a OPC e EMSP. A faturação como serviço e a ligação a hubs internacionais ainda estão em desenvolvimento.
O primeiro desses hubs fica do outro lado da fronteira. A MOBI.E está a desenvolver dentro do Mobi.Hub a interoperabilidade com Espanha, para que os parceiros ligados cheguem às redes e aos utilizadores espanhóis com a mesma integração e o mesmo contrato, e apresenta o roaming ibérico como a base para crescer na Europa. Os postos espanhóis ainda não estão na plataforma, e a empresa não indicou data nem quantos pontos vão entrar.
Questionado sobre o risco de a rede portuguesa se partir em várias, António Veiga Ferrão usou Espanha como exemplo: lá, os maiores operadores juntaram-se, deixaram os outros de fora, e quem atravessa o país num elétrico pode precisar de 20 cartões.
Mobi.Charge para quem não tem backend
O segundo produto é dirigido aos operadores mais pequenos, que muitas vezes instalam postos sem terem um sistema de gestão de carregamento (CPMS) próprio. O Mobi.Charge quer ocupar esse espaço com ligação direta aos equipamentos através do protocolo OCPP (versões 1.5, 1.6 e 2.0.1), arranque e fim das sessões em tempo real, controlo remoto, monitorização e ligação nativa ao Mobi.Hub.
Na lista de funções em desenvolvimento entram uma aplicação de marca branca para EMSP, uma nova versão do sistema de alarmes, preços dinâmicos com gestão de carga, um mercado de parceiros e o Plug & Charge, a tecnologia que autentica o carro e inicia o carregamento sem cartão nem aplicação.
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Calendário e preços
A entrada no mercado está dividida em duas fases. Até dezembro de 2026, a MOBI.E vai integrar os EMSP, com integração gratuita até 2027; a partir desse mês chega a vez dos OPC, com os postos de carregamento.
O Mobi.Hub é cobrado por kWh, com desconto progressivo consoante o volume de transações, enquanto o Mobi.Charge tem uma mensalidade fixa por tomada, e nenhum dos dois cobra taxa de adesão na fase de lançamento.
António Veiga Ferrão afastou a ideia de a empresa pública usar a posição de incumbente para esmagar a concorrência. A MOBI.E, explicou, não pode praticar preços abaixo do custo e tem de cobrar com base no custo e numa margem de lucro razoável; é financeiramente autónoma e, se a atividade deixar de ser sustentável, terá de o comunicar ao acionista, o Estado.
Transporte público é a próxima etapa
Os dois produtos fazem parte de uma reorganização maior da empresa pública, que quer entrar noutros setores, a começar pela integração do transporte público. Na apresentação,Veiga Ferrão descreveu a MOBI.E como o braço tecnológico do Estado para a mobilidade e mostrou a nova assinatura da marca, “Ligamos a mobilidade”.
A ambição passa por um único suporte para qualquer transporte, com standards de bilhética e um gestor de dados de mobilidade.
Mobi.pay usa o cartão bancário
O primeiro produto dessa área chama-se Mobi.pay e, não é uma marca nem um cartão novo. O passageiro paga com o cartão bancário que já usa, e a MOBI.E cruza os dados por trás, numa camada acima dos sistemas de cada operador. A empresa não quer, nesta fase, vender diretamente ao cliente final.
Há já protocolos com a CP, o Metro de Lisboa, o Metro do Porto, a TML, a TMP, a Transtejo e Soflusa e o Metro Mondego, e a MOBI.E começou a assinar acordos com autoridades de transporte, como as comunidades intermunicipais. O caderno de encargos está em consulta junto dos operadores, o concurso deve ser lançado no final do ano e os testes da solução de validação em novos operadores arrancam no primeiro semestre de 2027.
O alvo é o passageiro ocasional. Quem anda todos os dias com passe está bem servido, mas, de acordo com o exemplo de António Veiga Ferrão, quem vai ao Porto tem de comprar e carregar um novo suporte, que depois não serve em Lisboa.
Mais à frente, o sistema poderá reproduzir um passe com o cartão bancário: o passageiro paga cada viagem até atingir o preço do passe e, a partir daí, deixa de ser cobrado. Veiga Ferrão deu como exemplo um teto semanal para todo o Algarve.
O novo site da empresa, novo.mobie.pt, fica disponível a 2 de novembro.
Fontes: comunicado de imprensa da MOBI.E, 21 de outubro de 2026; apresentações do evento MOBI.E Next de António Veiga Ferrão e Sílvia Amaral e declarações de António Veiga Ferrão em conferência de imprensa; Diário da República, Decreto-Lei n.º 155/2026; ECO, Decreto-Lei n.º 93/2025; MOBI.E.




